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domingo, outubro 26, 2008

(História) Carta de Um Apaixonado V

Sinto-te perto, e longe. Ao mesmo tempo. Mexeste na minha vida. Retiraste-me futuro e vida porque o limbo nunca foi caminho.

Sinto-te longe, e por vezes perto.

Não percebi sequer o que podes querer de mim. Ainda.

Investes na normalidade da tua vida enquanto revolves tudo aquilo que era meu. Coloquei-me numa redoma por força de uma esperança para a qual não encontro agora sentido.

Nunca me foi fácil encontrar a peça certa, talvez pela exigência que a vida me impôs. Mas olho para ti e percebo todos os encaixes com uma clareza assustadora.

Aproximas-te, ficando longe.

E com isso me causas solidão, sofrimento e exaustão.

Nunca entendi a falta de clareza sentimental. Talvez por sempre ter sabido o que queria e procurava. Sinto-me apenas novidade numa vida estável e remediada. Para que precisas tu de mim?

Estás perto e longe. Ao mesmo tempo.

Nunca me pareceu justo conhecer para trocar. Deviamos escolher novos caminhos apenas quando sentimos que o que agora percorremos já não nos leva a lado nenhum. E na ainda possibilidade do caminho corrente, ninguém deveria optar por outro só porque pode parecer melhor.

Viver em pleno comporta riscos. Porque o pleno nos exige correcção. E a correcção obriga à escolha, sem caminhos paralelos.

Estás perto, mas sempre muito longe.

Para sorte a minha, sempre sobrevivi a qualquer tempestade, porque Deus fez de mim um resistente.

E, se assim não fosse, o que seria agora de mim?

(História) Carta de Um Apaixonado IV

Tu sabes que o banal e o fácil nunca me cativaram. Sabes que nasci para ser um Cavaleiro num qualquer Castelo Real. E sabes que sempre soube rápido que caminho tomar. Talvez por ser demasiado atento com a vida e por saber exactamente o que quero para mim.

Conheço muitas mulheres. E também aprendo muito rápido.

Conheço a mulher humilhada que sistematicamente desculpa. Conheço a mulher que pouco sonha para si. Conheço a mulher que é Mãe e esposa, mas que não é mulher. Conheço a mulher que se submete a todo o tipo de controlos, aceitando-os como actos normais.

Conheço a mulher que é feliz sem saber o que é a felicidade. Conheço a mulher que nunca arrisca porque teme a solidão. Conheço a mulher reclusa que se contenta com o pouco que tem. Conheço a mulher que encara o desgaste de uma relação como uma fatalidade normal.

Conheço a mulher que não é capaz de ver longe, porque o longe nunca lhe parece seguro. Conheço a mulher apenas capaz de trocar. Conheço a mulher incapaz de acreditar. Conheço a mulher limitada que não se vê como um ser autónomo e útil. Conheço até a mulher que não acredita poder ser amada de verdade.

Conheço mesmo muitas mulheres. E nenhuma delas é para mim. Simplesmente porque não as quero. Nasci para ser Cavaleiro e Cavaleiro hei-de morrer. E, convenhamos, um Cavaleiro tem sempre a seu lado uma Princesa. E uma Princesa não é mesmo uma mulher qualquer.

Assim, chegados a este fim, me despeço de ti com o mesmo carinho com que te conheci.

terça-feira, outubro 21, 2008

(História) O Caminho de X y Z

Passeei na praia de mão dada contigo. Num qualquer final de dia. O mar percorria os nossos pés, na sua ida e volta ritmada. Tanto o vento como a chuva nos acalmavam o espírito e serenavam também o nervosismo de quem se expõe assim ao amor.

Quis-te tanto para mim como tento adivinhar o quanto me quiseste para ti. Quis o destino que nos cruzassemos de maneira certa mas num tempo errado. E quis a vida desafiar-me a solidão e desafiar-te a ti a paz.

Num início de fim escrito. Porque estava evidente aos nossos olhos. A curiosidade edificou a ponte que nos uniu. E nós, nascidos em cada um dos extremos, percorremos o caminho do tempo agreste para nos juntarmos num só.

Estavamos agora de mão dada. Para não mais a largarmos. Juntos, numa aventura de vida que iria durar a eternidade. Eu entreguei a coragem, e tu a sensatez. Estavamos juntos. E seria de vez.

Pedi para te descobrir o cheiro. O teu. Entregaste o teu corpo nas minhas mãos. Percorri assim todos os teus caminhos com a delicadeza do amor que te tinha e tu permitiste que aquela noite se transformasse no momento especial que ambos sonhamos.

Tornaste-te parte integrante da minha vida. Deixei de pensar só. Sonhavamos a meias. Criavamos juntos. Jogavamos e brincavamos. Não mais vi a solidão. Foste pele na minha e sangue que me alimentou.

Hoje és o pilar do meu centro vital. Tudo o que sou o devo a ti. À tua generosidade, ao teu cuidado, à tua inteligência e visão, à tua ajuda, à tua alegria, ao teu sentido prático e à tua coragem.

E após tanto tempo passado, ainda agora olho para trás e me pergunto como foste tu ficar a meu lado?

quarta-feira, setembro 10, 2008

(História) Carta de Um Apaixonado III

Partiste. E contigo levaste quase tudo de mim. Deixaste-me despido num mundo que já não conhecia. Estranho agora as sombras e os movimentos à minha volta. Nada me parece familiar. Até os caminhos que antes percorria, agora me parecem desconhecidos e sem recordação. Fiquei perdido, sem a tua mão.

Partiste. E dentro de mim pouco sobrou. Deixei de perceber o tempo, o espaço e a palavra. Tudo parece complicado e sem destino casual. Comprometo os compromissos por não me lembrar para que servem. Até os sonhos me abandonaram. Para nada há uma razão. O que antes parecia possível, ficou agora para lá da monção.

Partiste. E em mim nada ficou. Levaste-me a alegria, a esperança e a fé. Penso agora no que sou. No que sobrou. E não há substracto que me possa definir. Vejo-me num espelho que não mais me pertence. Nem os traços são meus, nem as cores me avivam a memória. Não percebo a acção. Não encontro motivação.

Partiste. E agora nada sou.

quinta-feira, setembro 04, 2008

(História) Carta de Um Apaixonado II

Passo os minutos a tentar não pensar em ti. Distraio-me com os cavalos que me passam à porta. Mas até a sua esbelta silhueta me lembram os teus traços. Leio, pinto, toco e escrevo. E na parecença da minha distracção, tu não me sais da cabeça.

Pedes-me para não te enviar mais pergaminhos, mas é certo que a pena não me sai nunca da mão. Se me custa tanto não te enviar um agora mesmo, como farei então nos restantes dias que ainda me restam?

Que crueldade escolheu a vida para mim, amputando-me do meu sonho de menino?

Passo os dias sem saber como não pensar em ti. Peço a Deus para que sejam já poucos os dias que me separam de meu Pai. Já sabes que todo o meu reino de nada vale sem a tua presença.

E tudo o que foi construído, foi erguido pensando em nós. Todos os traços, desenhos, projectos e ensaios tiveram como pano de fundo o nosso amor. Perdi-me em concepções tempo demais. E paguei muito caro por isso. Não percebi que a tua visão da vida era bem mais simples.

E com tudo isto, não sei ainda como não pensar em ti. Porque todos os segundos do meu dia me são preenchidos contigo. Até Marte me conseguiu trair. O jantar de tempos idos não mais se repetiu. Mas a Lua guardou o nosso lugar. Ainda daqui o vejo, sem mais ninguém.

Como posso não pensar em ti, se tudo o que és faz parte de mim?

quarta-feira, setembro 03, 2008

(História) Carta de Um Apaixonado I

Não saberei nunca dizer-te adeus... porque para despedida só conheço a morte. E tarde-demais não é palavra a que me tenha também habituado. Toda a minha vida foi suficientemente difícil para perceber que não podem haver tardes-demais, sob pena de nunca chegarmos a lado nenhum.

Também me lembro que todos os inventores perderam séculos a experimentar, falhar, aprender, pensar e tentar de novo. Para eles, não existia a palavra tarde-demais, da mesma forma que um Pai nunca desistia de um filho, por mais erros que cometesse ou dificuldades de crescimento que enfrentasse.

Pois para mim, o tarde-demais também não existe. Porque, na morte do dia anterior, renasce um novo, logo a seguir, e com a mesma esperança do que passou. Dá-nos as mesmas ferramentas para recriar, a mesma liberdade para alterar um rumo e a mesma facilidade para aprender.

Também nunca saberia dizer-te adeus. Porque hoje já fazes parte de mim, no meu todo universal. E sei que com isto arrisco a nunca mais poder viver de uma forma satisfatória. Mas, como todas as grandes experiências dos cientistas, nenhuma delas, enquanto experiência, lhes garante um resultado positivo no final.

Aliás, acho mesmo que um resultado positivo só pode ser garantido pela capacidade de não desistir. De perseguir, de mudar, de ajustar, de melhorar, sempre com um mesmo objectivo em vista.

Pois o meu objectivo és tu. Sim, tu. Porque a vida já fez mais de meio caminho e eu não encontrei mais ninguém com quem tanto gostasse de conversar. Parece pouco, mas não é. Porque a capacidade de conversar está na base de tudo o que é importante.

Assim, nunca te irei dizer adeus. E espero que um dia possas entender porque é que algumas pessoas não sabem desistir. Porque não podem. Apenas porque não podem. Porque do outro lado está o único fim de vida delas.

Tem tanto de simples como de assustador.

sábado, fevereiro 09, 2008

(História) Um Acreditar

Amavam-se desde pequenos. Conheciam-se mutuamente tão bem, como se fossem um ser único. Partilhavam desde sempre os sonhos e as ilusões de um mundo que queriam perfeito e à medida do seu amor. Sabiam que ficariam juntos para todo o sempre.

Chamavam-se P e M. P tinha um porte magro, era moreno e a sua alma era visível através do olhar. M era uma menina calma, meiga. Tinha cabelos pretos e uma classe fora do comum. Toda ela era delicadeza e beleza singular.

Durante alguns anos tudo na vida lhes sorriu. O universo conspirava também para que aquele amor vingasse e se fortificasse a cada dia passado. P e M tinham sido feitos um para o outro. E sabiam-no.

Mas, de um dia para o outro, tudo se alterou. P passou por uma fase muito má. Perdeu parte da sua vida, e com ela, a sua auto-estima e a vontade de caminhar. A M viria a sofrer durante dois anos e meio as agruras de uma companhia sem alma e sem fogo.

O P perdeu-se num mundo agora estranho. Largou os sonhos e mergulhou nas dores da droga. Viu partir todos os seus amigos, pessoas que agora não se identificavam com a perdição em que se encontrava. Apontavam-lhe o dedo e, entre dentes, acusavam-no de ser um fraco. Não teve nem a companhia nem a ajuda de nenhum.

Esqueceu as referências da sua vida e continuou perdido num mundo diferente até que a sua própria família lhe virou também as costas. Tinham cedido à vergonha e baixado os braços. Era agora pessoa estranha.

No entanto, a M nunca o abandonou. Conhecia-o bem demais para saber que ele era muito mais do que aquele homem agora feito farrapo. Conhecia a sua essência e tinha partilhado com ele todos os sonhos e ilusões de uma vida. Estava decidida a reerguer aquela alma perdida.

Quando interpelada por amigos comuns que lhe aconselhavam a seguir o seu caminho longe de P, a M respondia sempre da mesma forma: "Conheço o P bem demais e um mau momento não faz uma essência. Sei quem ele é, sei o que vale e também sei que o meu lugar é ao lado de quem sempre acreditei. Enquanto este momento não passar, estarei a seu lado, de mão dada. No final, seguiremos o caminho que está escrito para nós".

M teve o seu quinhão de dor e de angústia. Durante dois anos e meio, manteve-se ao lado de P, contrariando com a sua forma de ser suave e meiga, todas as maleitas da perdição de P. Deu de si a alma e a beleza de um acreditar invejável. Nunca recebeu nada em troca.

Mas, no desespero de P, M via sempre a honestidade e a simplicidade do rapaz que a conquistou com a alma. M via mais longe. M viu mais longe do que todos os amigos e familiares de P. M via P, através dos seus olhos, exactamente como ele era.

Foi através de M que P recuperou. P não percebia como é que M ainda se mantinha ali, a seu lado. E a sua dor era ainda maior. Mas M recordava-lhe a todo o momento que estava ali, porque sempre soube quem ele era e que por isso mesmo acreditava nele. Aquele momento iria passar e M estaria lá, para continuar o caminho que ambos tinham sonhado. Dizia-lhe muitas vezes: "Não tenhas medo deste momento mau - ele vai passar. Uma fraqueza não faz de ti um homem fraco. No entretanto, tu nunca estarás sozinho, porque te espero, para te levar comigo".

P recuperou, com M a seu lado. P recuperou porque M acreditou. Seguiram juntos o caminho comum de ambos, casaram e tiveram quatro filhos lindos. Vivem agora o seu sonho de sempre: lado a lado.

Hoje o P define a M desta forma: "Ela é tão só o ar que respiro, o caminho pelo qual me guio e o anjo por quem rezo todas as noites, pois é a ela que devo toda uma vida. M é um acreditar".

quarta-feira, janeiro 16, 2008

(História) Ao Lado

Podia mostrar-te milhares de formas de estarmos ao lado de outra pessoa...

Curiosamente, todas elas, as milhares, são tão pequenas e tão simples, que se torna por vezes difícil perceber o impacto que têm nos outros. Mas é verdade: têm impacto e nunca é pequeno.

Estar ao lado significa, estar na presença, estar nas acções, estar nas palavras e estar no pensamento. Estar ao lado significa também e tão só não esquecer e mostrar que não se esquece, de alguma forma, mesmo que simples.

Nos últimos tempos, tenho tido a sorte de receber de várias pessoas essas pequenas atenções que me provam estarem a meu lado. No entanto, nenhuma veio de ti...

De ti, teria de recuar vários anos para me lembrar de algo que pudesse catalogar desta forma... e falo da coisa mais simples do mundo quando se gosta mesmo.

Para que percebas melhor do que falo, vou dizer-te também que há sempre alturas na nossa vida onde estes pequenos gestos são responsáveis por nos manter à tona de água e que a eles nos agarramos como pão para a boca.

Vou dizer-te também que ninguém quer viver sem eles e que, sempre que uma relação tenta viver com a sua falta, tende a morrer lentamente. Porque, entre outras coisas, são estes pequenos gestos que nos mostram que somos apreciados, lembrados e amados.

Não tive sorte contigo... em muitos aspectos mesmo. Mas hoje, fico feliz em pensar que outros, para além de ti, me têm dado aquilo que sustenta qualquer ser humano minimamente sensível.

Podia mesmo mostrar-te milhares de formas de estarmos ao lado de outra pessoa... mas não iria mudar nada.

terça-feira, dezembro 25, 2007

(História) Em Lados Opostos

Não sei o nome dele, mas chamar-lhe-ia Miguel porque me lembrou o meu querido irmão...

Tinha um traço fino, os cabelos já um pouco grisalhos fruto dos 40 anos e a postura de quem um dia teve uma vida idêntica à minha.

Mas o seu olhar estava agora disperso, vagueando pelas mesas e por aquele prato que pousava à sua frente. Tinha-se perdido nas linhas da vida.

Mudou a sua sorte e mudaram também os amigos de outrora pelos amigos que agora o acompanham. Amigos de uma vida triste, de vícios e de dependências.

Conversamos um pouco e tentei tirar-lhe a vergonha de ali estar. Servi-o. E, durante aqueles longos minutos, tentei tomar conta dele da melhor forma que pude.

Estou certo de que nascemos do mesmo lado. Mas, naquela hora, encontramo-nos em lados opostos.

quinta-feira, novembro 29, 2007

(História) Pedras Perdidas

Num mundo de águas e areias vivam duas pequenas pedras do mar. Uma, muito branca e redonda, habitava as profundezas do oceano. A outra, preta e de formato mais oval, fazia a sua vida no constante quebrar das ondas, onde o sal mais se fazia sentir.

Tanto uma como a outra, necessitavam da água para viver pois eram ambas simples pedras do mar. Existiam já há centenas de anos e nunca tinham conhecido outro local para além daquele que habitavam. Sonhavam um dia conhecer o resto do mundo e com isso encontrar uma ajuda para atingirem os respectivos objectivos de vida.

Tinham objectivos idênticos na essência, mas opostos no resultado. Sonhavam um dia poder alterar a sua cor - a branca para uma cor mais forte e escurecida, e a preta para uma cor mais aberta, mais suave.

Sofriam também de um mal comum: da enorme tristeza de viverem sós, da carência, da falta de companhia e de apoio, das palavras reconfortantes e de um amor inexistente. Sofriam ambas da solidão.

Mas um dia as suas vidas comecariam a mudar. Anunciavam agora, por todos os reinos do oceano, que estava para chegar a Fada dos Desejos e com ela, a dádiva de oferecer a cada habitante um desejo escolhido por eles.

No entanto, esse desejo não poderia ser escolhido função de um qualquer interesse oportunista, mas sim função de um sonho presente na vida de cada um.

Quando chegou a vez de cada uma das pedras, ambas pediram para mudar a sua cor, de acordo com o sonho que tinham. Era de facto um desejo antigo, mas o pedido não foi aceite desta forma. A Fada deu-lhes antes a capacidade de se moverem na água para que finalmente pudessem procurar aquilo que lhes faltava. E, ao dar-lhes essa capacidade, fez por elas muito mais do que na altura ambas poderiam imaginar. Haveriam um dia de alterar a sua cor e ao mesmo tempo acabar de vez com a solidão.

Depois do encontro com a Fada dos Desejos, puderam finalmente por-se a caminho da descoberta dos outros mundos. Uma saindo das profundezas do oceano e outra mergulhando um pouco mais no mesmo.

No curso dos caminhos inversos que ambas faziam, chegou o momento em que se cruzaram... estavam agora estupefactas a olhar para a cor que cada uma tinha, pois no fundo, era parte da cor que ambas queriam para misturar.

Percebiam agora que estavam perante um complemento das suas necessidades e, ao mesmo tempo, perante a supressão das carências de ambas.

Assim, as pedras, antes perdidas, encontraram-se finalmente para se fundirem numa só, maior, mais sólida, e para o resto da eternidade.

segunda-feira, outubro 22, 2007

(História) O Nosso Jardim

Passei novamente no nosso jardim. Naquele, onde namoramos uma única vez. Apesar de bem no centro da cidade, e de estar rodeado por centenas de viaturas em movimento, lá no meio, tudo se dissipa, e parece que acabámos de entrar num outro mundo.

Aqueles passeios de terra, aqueles canteiros, aquelas árvores, aquela relva e até os cheiros presentes, fazem-me recuar dezenas de anos e recordar uma época onde tudo acontecia bem mais devagar.

Aqui ou ali, ganho coragem e vou parando lá. Sento-me no mesmo banco onde namorámos, mas desta vez sem a tua companhia, sem a tua mão. E naquele pedaço de tempo recordo todos os nossos sonhos e todas as nossas batalhas, aquelas que nos fizeram chegar tão longe.

Apesar de hoje me fazeres tanta falta, o meu sonho contigo continua intacto. Mais claro e mais lúcido ainda. Talvez porque foi o único verdadeiro sonho que tive em toda a minha vida. Sabes que sou resistente aos maus momentos e que também sou muito persistente. E por isso eles não me largam. Porque os autorizo a viver dentro de mim, todos os dias, por um pouco.

Ali me recordo de ti, do teu rosto, do teu sorriso, do teu cabelo, das tuas mãos, da tua voz, da tua paz, do teu encanto, da tua delicadeza e da tua fragilidade. Ali me recordo da força que retiravas de mim e de como dependias da minha alegria para viver.

Findo esse tempo, volto a colocar tudo muito direitinho, na mesma caixinha, com o amor que sempre te tive. Guardo lá todas as memórias, todas as alegrias, todas as dores e sonhos, todas as lutas, comemorações e todos os momentos de intimidade que vivemos juntos.

Posso depois transformar-me no homem áspero e triste que hoje sou. Carrego comigo todas as amarguras e tristezas de já não te ter, a ti e aos teus. Muda depois o meu semblante, e muda o peso que carrego comigo. Acentuam-se novamente as rugas e os meus olhos perdem o brilho que um dia te conquistou.

E assim vivo até à próxima vez em que, por coragem, capricho ou masoquismo, me atrevo a sentar no mesmo banco, como que a teu lado, com a mesma caixinha pousada nas pernas e me decido a abri-la, deixando que todas aquelas coisas bonitas me invadam novamente a alma. Nem que por momentos apenas...

Lembras-te do nosso jardim? Bem no centro da cidade, onde namoramos uma única vez?

quinta-feira, setembro 13, 2007

(História) Perdidos

Estávamos feitos um para o outro. Tínhamos trilhado vidas diferentes até que o destino nos juntou. Não mais nos largaríamos. Por maiores que fossem as dificuldades e toda a maldade que nos rodeava.

Procuravas abrigo debaixo da tenda protectora que havia construído propositadamente para ti. Colocavas-te bem atrás de mim e aproveitavas o conforto da mesma. Não sentias o frio, a chuva, nem tão pouco o medo de deambular sozinha.

Vias nela também o teu caminho, a luz que nos guiava aos dois por um mundo que queríamos novo. Muitas vezes me perguntei se achavas esta tenda realmente confortável... mas a paz e a alegria que via nos teus olhos respondiam-me sempre da mesma forma. Estavas feliz. Como nunca tinhas estado.

Tínhamos também um manto, um manto construído com todos os nossos sonhos, que usávamos para dar mais brilho à lua, mal a noite se instalava. Era ali que guardávamos os nossos segredos e que nos amávamos vezes sem conta. Todas as noites colocávamos mais qualquer coisa no nosso manto. Ele representava o nosso passado, o nosso presente e tudo o queríamos para o futuro.

Repousávamos sempre na torre do nosso castelo, sob as estrelas do céu. Era ali que riamos, que brincávamos e que nos prometíamos um ao outro, para todo o sempre. Aproveitávamos também todos os momentos para namorar de mãos dadas ao abrigo do luar, protegidos pela boa nova das estrelas.

Apesar de todas as provações, tínhamos uma vida plena, porquanto a mesma misturava a paz, a alegria, o amor, o respeito, o carinho, o orgulho, a admiração, a paixão e a vontade.

Mas um dia tudo mudou. E hoje olhas-me sem tenda. Hoje olhas-me sem manto. Hoje olhas-me sem castelo.

Hoje já não te guias a coberto da tenda, não sonhas no nosso manto e não namoras no nosso castelo.

Hoje sentes-me nu, à deriva num mundo atroz e evitas participar a meu lado deste final triste e perdido.

E acabamos assim mesmo, perdidos, num triste final.

segunda-feira, setembro 10, 2007

(História) Neste Banco

Hoje parei no nosso banco... naquele onde toda a cidade adormece e onde cheiros e ruídos se transformam. Nunca cheguei a perceber como é que um banco no meio de tão movimentada cidade pode oferecer tamanha privacidade.

Aqui lembrei os nossos sonhos, e a esperança de nunca nos perdermos. Pareciamos pessoas fortes e determinadas, apesar de tudo conspirar contra nós.

Tinhamos passado já por diversas provas de fogo e, uma a uma, tinhamos conseguido superá-las e seguir em frente.

Acreditava eu que, por cada obstáculo superado, o nosso amor saía mais forte e a certeza de que nos queríamos um para o outro também.

Unia-nos um sonho, um sonho de vida, comum, e uma vontade férrea de acabarmos juntos. Sempre. Fosse em que circunstância fosse.

Hoje parei no nosso banco. E hoje não mais sairia dele.

Sei que é sempre melhor viver do que sonhar, mas na falta momentânea de uma opção de vida, o sonho acaba sempre por nos preencher a alma e abraçar-nos o coração.

Sinto saudade de ter saudades. De acreditar. Até de me magoar. De saber que posso contar contigo, que nunca estou só.

Mas hoje, a vida aparece-me plena de nevoeiro e amputada de esperança. Pelo menos daquela que me levava para o teu colo. Aquele que tão poucas vezes me deste.

E hoje, neste banco, lembro-nos outra vez.

sexta-feira, agosto 10, 2007

(História) Duas Verdades, Ambas Erradas

Numa relação a dois, a forma como ambos se entregam desde o início, é muitas vezes determinante para o seu desfecho.

Vamos analisar uma pequena história onde ambas as conclusões, retiradas por cada um dos intervenientes no fim da relação, são verdade para cada um deles, mas ambas são erradas num contexto global de sentimento envolvido.

A história reza assim:

Uma menina e um menino gostavam muito um do outro. Pareciam até feitos de propósito para aquela relação. Ambos se amavam muito e ambos estavam certos de que tinham encontrado a sua alma gémea.

Mas a menina, porque no passado já tinha amado e por isso mesmo também já tinha sofrido muito, optou desta vez por uma atitude mais segura e comedida (achava ela).

A menina, com medo de dar tudo o que era, com medo de abrir totalmente o seu coração e se magoar depois, optou por dar a conhecer apenas uma parte de si, ser apenas pela metade, defendendo-se assim de um possível fracasso.

Não se envolveu na totalidade, não deu todo o amor que tinha dentro de si, controlou com a razão de quem sabe o que é sofrer, a emoção de tudo o que tinha para dar.

Sabia que assim, se a relação não vingasse, não sofreria também tanto como no passado porque o seu envolvimento estava agora mais controlado, mais racionalizado.

O menino, que desde o primeiro momento abriu o seu coração a este amor, sem medos, sem barreiras e sem fantasmas, cedo começou a perceber que afinal a menina não se entregava da mesma forma que ele, estava muitas vezes não estando e com isso não conseguiam criar uma ligação forte de união, de cumplicidade.

O menino não procurava uma relação qualquer. Procurava antes uma relação especial e única. Abandonou assim a menina, por concluir que se enganara nas características da menina que havia escolhido.

Conclusão:

A menina era de facto especial, única. O menino também. Estavam feitos um para o outro, na perfeição.

A menina, para se defender, deu apenas parte de si. A relação ao não resultar, só lhe deu razão: não sofreu tanto e como tal, tinha-se protegido. Tomou a sua decisão como certa, como a sua verdade e a partir deste momento passou a guiar-se por este tipo de postura, mais racional.

O menino concluiu que a menina afinal não era aquilo que parecia ser. Era uma pessoa mais calculista, mais racional do que ele e com dificuldades em criar uma comunhão, uma cumplicidade.

Era um amor morno, que o menino recusou. Concluiu que aquela menina não era quem procurava, porque não tinha a capacidade de dar. E esta ficou a ser a sua verdade, também correcta, face aos factos de que dispunha.

O menino e a menina nunca mais namoraram e suas vidas separaram-se em definitivo.

A menina deu metade, para se defender. Não sofreu. O menino conheceu metade da menina como se fosse parte inteira. Não a quis. Tanto um como outro decidiram função das suas verdades.

Foram duas verdades, ambas erradas, que os afastaram de vez.

quinta-feira, junho 21, 2007

(História) Uma Estrela no Céu

Numa terra distante, existente num mundo paralelo ao nosso, vivia um pequeno menino.

Seu corpo habitava a cidade cosmopolita, mas sua alma continuava ligada ao mundo paralelo onde nasceu.

O menino era um menino diferente. Diziam-no todas as pessoas que com ele partilhavam vida no mundo terreno.

Tinha herdado de seu Pai, naquela terra distante, caraterísticas que outros teimavam em chamar de raras e muitas vezes de únicas.

Hoje era dono de uma sensibilidade fora do comum, orientada para os sentidos: para a visão, para o olfacto, para o tacto e para a audição.

Possuía também o dom da palavra, consequência do ser espiritual e intelectual em que se tornara e efeito do legado deixado pelo seu Pai.

Era um ser altruísta: vivia grande parte do tempo para outros, orientando o seu esforço sempre em benefício de terceiros.

Todos o consideravam uma pessoa justa e imparcial e por isso o procuravam de forma constante para ouvir a sua opinião.

Distinguia bem os positivos efeitos imediatístas de uma decisão errada, dos seguros efeitos no longo prazo de todas as decisões acertadas e por este motivo o classificavam como visionário.

Previligiava os diálogos, as actividades músicais, o desporto, a literatura e as artes.

Mas parte da sua vida mundana era passada de acordo com as conformidades e necessidades instituídas pela sociedade que vigorava.

Usava a predominância espiritual e intelectual para colocar magia em todos os campos mais físicos da sua vida. Não imaginava uma qualquer actividade física sem que a mesma fosse controlada pela parte espiritual.

Para ele, a parte física era a parte visível da sua espiritualidade e intelectualidade e como tal um seu reflexo.

Mas nesse seu outro mundo, era um menino muito só. Apesar de querido, admirado e cobiçado no universo feminino, a barreira entre os dois mundos sempre pareceu inviolável.

O menino foi crescendo e em mais de quarenta relações nunca encontrou alguém que conseguisse transpôr aquela barreira, entre o mundo que era apenas dele e o mundo dos mortais.

Aos poucos, foi percebendo então que não estava escrito no seu destino o encontro com a sua verdadeira Princesa.

À imagem do Pai, a sua vida tinha sido resgatada por alguém superior para que pudesse servir um propósito maior: viver em benefício de terceiros.

E assim, tal como o destino tinha traçado, aquele menino, agora Homem, passou a orientar a sua imensa luz na direcção de todos os que o rodeavam, procurando guiá-los na descoberta da alegria, da paz, da tranquilidade e do amor.

Ganhou o menino, agora Homem, e ganhou o mundo mais uma estrela no céu.

quinta-feira, novembro 11, 2004

(História) Milagres de Deus

Para mim, todos os dias são lindos... mas, talvez como toda a gente, tenha uns dias mais lindos do que outros... são aqueles em que acontecem os Milagres de Deus.

Para além dos fins de semana quinzenais, durante dois dias e duas noites por semana, tenho o previlégio de ficar com os meus filhos (o Miguel que vai fazer seis anos e a Carolina que irá fazer três) e de, nessa altura, ser ainda mais Pai do que nos outros dias.

Por cada um desses dias, são quatro horas até deitar, repletas de desafios e de imensas alegrias:

São os pequenos abraços quando os vou buscar à escola, abraços do tamanho de um Xi, apertados e seguros, tal como um grande mata saudades...

São os lanches no café, as companhias no supermercado, os passeios de trotinete ou os deveres para fazer até às sete...

São os banhos ao chegar a casa, com bolinhas de água e ar a brincar com três corpos que por momentos se transformam em apenas um, como que a provar que a semente está lá, presente em cada um...

São as toalhas, o chão molhado, os cremes e os cheiros, os pijamas, os roupões e os chinelos, os risos, os beijos, os abraços e as brincadeiras com os patinhos amarelos...

São os minutos a preparar o jantar com as suas ajudas; um deles põe a mesa, o outro mexe a sopa... ficando no fim o sentimento de se terem sentido úteis ao contribuirem para uma necessidade comum...

São as suas independências durante a refeição; servem-se do garfo e da faca, da colher... comem sózinhos, como se fossem já pequenos adultos. Riem, brincam e gabam a comida, como se tivesse sido confeccionada por um "chief" francês...

São os minutos de lazer após o jantar, a jogar computador ou a pintar, a ouvir uma história ou apenas a brincar...

São os tons suaves do antes de dormir, no quarto, os três tão juntos a ver um qualquer pequeno pedaço de filme animado, aguardando que o sono chegue... as festas, o tocar dos seus pézinhos, das suas mãos e o som mágico das suas palavrinhas de amor...

São os seus rostos já em descanço, em paz com o mundo e de bem com a vida, felizes, aguardando tranquilamente um novo dia...

São os lentos acordares pela manhã, com sorrisos e toques de bons dias e corridas para o pequeno almoço feito de leite, flocos e pão e as pequenas conversas com a Conceição...

São o preparar dos seus lanches, as saídas com as batas, uniformes e manuais, o passear das mochilas e os beijos de despedida com um até logo mais...

Quando ficam por fim entregues ao seu dia na escola, sobram as suas roupinhas para lavar e a enorme esperança de que no dia seguinte aconteça um novo Milagre de Deus.

E por cada um Lhe agradeço, do fundo do meu coração.

quinta-feira, outubro 07, 2004

(História) Para Não Mais Voltar

Hoje acordei no meio de um imenso nevoeiro. Na rua, um estranho silêncio passeava por entre pessoas cinzentas, prédios sem côr e passeios tristes. Tinhas partido, para não mais voltar.

Deambulei, ainda meio confuso, pelas estradas da minha vida e obriguei-me a recordar tudo o que tinhas de lindo, de puro e de verdadeiro.

Pura ilusão. Estavas, já não estando, e partiste, para não mais voltar.

A minha casa estava agora diferente. Os troncos tinham secado, mesmo vivendo dentro de água. As revistas, aquelas que liamos em conjunto, estavam ainda fechadas. O sofá já não tinha mais a tua companhia.

Esperei por um sorriso que nunca apareceu, ou por um qualquer carinho que me acordasse a alma. Agora, as tuas palavras soavam-me longe, distorcidas e sem convicção. Tinhas partido, mesmo estando, para não mais voltar.

Durante todo o tempo em que foste vida na minha, acreditei que estando por ti e para ti, te agarraria para sempre a mim. Mas já me tinhas avisado... mesmo sem nada dizer... com os mesmos olhos meigos com que me amaste... que um dia partirias, para não mais voltar.

Hoje, recordei a nossa noite... aquela... recordei a tua alegria, a tua meigiçe, a tua coragem, a tua força e a tua determinação. Recordei o teu corpo perfeito, a tua voz deliciosa, o teu cheiro viciante... e as tuas mãos, as tuas lindas mãos... que partiram, para não mais voltar.

E assim foi.

Mudaste, talvez por te teres perdido ou finalmente encontrado, mas com isso mudaste também toda a vida que era, também ela, minha.

E ainda hoje penso: porque partiste tu?

sexta-feira, setembro 17, 2004

(História) O Príncipe e a Princesa

Ela, que não era Princesa, conheceu alguns Eles, que não eram Príncipes, porque Ela, a que não era Princesa, nunca acreditou com o coração merecer conhecer um.

Para Ela, que não era Princesa, bastava alguém que dela gostasse, porque isso já era algo de especial.

E Ela, que não era Princesa, nem era pessoa má.

A história reza assim:

Ela, que não era Princesa, tinha acabado de sofrer mais um desgosto. Entre parcas lágrimas e muito pensar, disse mais uma vez a si mesma:

“... não era possível que desse certo... não somos iguais... somos diferentes, temos formas distintas de ver certas coisas e tempos de reacção muito díspares.”

E continuou:

“É, desisto. Vou para a minha concha.”
(será que quando começou já tinha desistido?)

Entretanto, um outro Ele, que também não era Príncipe, reparou naquela linda concha, suficientemente transparente para que se percebesse que dentro dela vivia uma Ela.

Uma Ela, que não era Princesa, mas também não era pessoa má (só que o Ele de nada sabia...).

- “Toc, toc”, bateu o Ele na concha.
- “Quem é?”, responde a Ela.
- “Quero conhecer-te!”, diz o Ele, em êxtase.
- “Gostas de mim?”, pergunta Ela, “É que se gostares, só por isso eu já gosto de ti!”, continuou.

E, ainda não satisfeita, Ela, que não era Princesa, e também não era pessoa má, decidiu esclarecer melhor aquele Ele que lhe bateu na concha:

- “Olha, só porque gostas de mim, eu já gosto de ti, mas por isso mesmo, não me interessa muito saber do que necessitas.”

E o seu monólogo não ficou por aqui:

- “Agora, se perceberes bem o que eu necessito, e, se por gostares de mim, me fizeres todas as vontades, aí, e porque gostas de mim, eu também gostarei de ti.”
- “Percebes?”
- “Sabes, eu não tenho muito jeito para me colocar no teu lugar, porque isso me obriga a não pensar em mim. Sou mais do género de sentir, (isso faço-o muito bem), e por isso sei direito o que quero para mim.”
- “E, se mo deres, é porque gostas de mim, e se gostas de mim, eu também gostarei de ti.”
- “Assim, porque sou a tua Princesa, tu serás o meu Príncipe.”

O Ele foi embora. Foi embora para nunca mais voltar, e, para Ela, esta história começou novamente no seu início.

terça-feira, setembro 14, 2004

(História) Um Homem Rico - I

Lembro-me muitas vezes do nosso sítio...

...pequenino, humilde e muito acolhedor. Na sala tem sofás pequenos e macios onde os nossos corpos repousam e se entrelaçam... os nossos pés vagueiam pelos tecidos e o ar fresco da casa arrepia nossos corpos... mantemo-nos sempre juntinhos.

A mesa de jantar é redonda (pequena) e tem por cima aqueles candeeiros que se ajustam (descem e sobem) e que também não são nada bonitos... mas aquele é castiço... porque é nosso. Temos uma televisão mono pequena e uma aparelhagem ao lado (também é pequena).

O nosso quarto tem uma cama baixa e muito larga e imensos pufs e almofadas pelo chão. Normalmente usamos todo o quarto quando nos amamos... tem prateleiras baixas cheias de livros que devoramos nos intervalos de fazer amor. Não tem luz no tecto, mas antes 3 pontos de luz indirecta.

Por vezes a luz do dia entra por pequenas frinchas pintando o quarto de um azul, laranja e cinzento, fresco e convidativo ao ronronar. Também temos um edredon de penas, muito leve, caído no chão e que usamos para aquecer momentaneamente os nossos corpos quando arrefecem. Não mostramos nunca o nosso quarto a ninguém. É apenas nosso.

A casa de banho é pequena, e por isso normalmente quando lavas os dentes estou sentado na sanita a admirar-te... ali não fazemos amor com os pés no chão... as paredes estão próximas e tanto o lavatório como a banheira ajudam a certos equilíbrios...

Temos um espelho muito pequeno à frente do lavatório... vemos apenas a nossa cara. Tenho dificuldade em fazer lá a barba. O reposteiro que separa a banheira do resto já caiu várias vezes fruto das nossas loucuras e desta vez mandamos aparafusar o dito na parede... os azulejos ficaram esbutenados e por isso estás sempre a dizer para colocarmos umas chicletes naquelas ranhuras horríveis.

A cozinha tem um pequeno fogão eléctrico (daqueles que estão separados de tudo) e alguns armários de madeira (penso que são de contraplacado)... a pintura já não ajuda, mas juro que um dia os vou pintar da tua côr favorita. Para já não há dinheiro.

Temos outro quarto, um +1. Não tem luz directa e por isso usamo-lo para os nossos materiais de pintura. Nem tu nem eu pintamos bem, mas fazemos muitas asneiras com as tintas... já simulei que a minha tela eras tu... ficaste com um ar de arco-iris.

Também temos uma varanda pequenina com vista para as traseiras... vemos as hortas de alguns vizinhos... por incrível que pareça não temos aí prédios à nossa frente e por isso às vezes juntamo-nos lá para sonhar com o dia em que iremos fazer férias fora de casa.

Também sonhamos muitas vezes em um dia trocar de casa, mas por agora acho que nos sentimos bem nesta.

O nosso carro fica ao relento, mas a rua é sossegada e por isso não nos falta lugar. De manhã, enquanto acabas de te arranjar eu vou descendo para empurrar o carro de modo a que pegue... talvez no próximo mês possamos colocar-lhe uma bateria nova.

Lembras-te quando fomos para a porta do casino ver todas aquelas pessoas bonitas e bem vestidas entrar? Acho que não devem ter uma casita como a nossa, mas tenho dúvidas se será tão acolhedora...

A camisa que me ponteaste ficou muito bem e já a posso levar outra vez para o trabalho. É bom sair às 17h porque ficamos com muito tempo para nós...

Hoje à noite vamos cozinhar os dois... fui ao Continente e comprei uma garrafita de vinho... vamos comemorar o facto de nos amarmos.

Sei que o fogão não ajuda, mas podiamos tentar fazer uma tarte de maçã e, por ser dia especial, uma sopa fresquinha.

Hoje à noite vou-te fazer uma promessa: vou tentar trabalhar um pouco menos para ter tempo de te fazer ainda mais feliz.

No Natal espero conseguir oferecer-te um perfume. Sei que não necessitas, mas gostava que te sentisses uma Princesa quando saírmos novamente para ver o mar com as roupas novas que compramos no Continente.

Antes de nos irmos deitar vamos encher a banheira e deliciarmo-nos com um banho relaxante... como o espaço é tão pequeno, hoje prometo que te deixo ficar com as pernas por cima. Se um dia conseguirmos, vamos comprar uns sais de banho para fazer muita espuma.

Amanhã de manhã não me apetece ir trabalhar... gostava muito de ficar agarradinho a ti a manhã toda, não vá a vida um dia pregar-me uma partida e levar-te para longe de mim. Amanhã não vou mesmo trabalhar...

Vou aproveitar mais uma vez o facto de estarmos juntos e não adiar este matar de saudades. Sabes, não quero mesmo que a vida te leve... esta casa é bonita contigo, mas deixa de fazer sentido sem ti... é como as minhas camisas e todas as coisas usadas que tenho: são bonitas porque estão ponteadas e arranjadas por ti.

Porque se assim não fosse, sentia-me um pobre.

sexta-feira, setembro 10, 2004

(História) Um Homem Rico - II

Sabes meu querido, eu também adoro a nossa casa. Adoro o raio do candeeiro em cima da mesa onde jantamos e que de tantos puxões já está quase a cair do tecto.

Adoro o nosso quarto com a cama grande (é só um estrado onde pousa o colchão) e a desarrumação propositada das almofadas e pufs. Adoro a sua luz de fim de tarde, o tal luscofusco... claro que nunca o mostraremos a ninguém. É só nosso. É lá que nos trocamos.

Às vezes parece-me que transpareces alguma preocupação quando falas no dinheiro que não temos. Não sabes que não poderia ser mais feliz? Não precisamos de outra televisão e a aparelhagem ainda toca... bem, talvez precisássemos de outro fogão... sabes que eu prefiro o gás... passo a vida a queimar-me nos bicos eléctricos, e detesto apanhar choques.

Ah... hoje, quando fui à padaria, roubei do canteiro da rua uns pés de sardinheira... são aquelas plantinhas que dão flores muito bonitas... a nossa varandinha vai ficar mais simpática.

Nunca te disse, mas não gostei lá muito de ir ao casino ver pessoas... teria preferido virar-me para o outro lado e ter ficado contigo abraçadinha a ver o mar revolto. Mas foi divertido à mesma... lembras-te daquela loura de cabelo descolorado, cheia de base na cara, que quase caiu quando os tacões tão finos ficaram entalados na calçada... foi tão engraçado... teve que se descalçar e arrancar de lá o sapato... tentava a todo o custo manter a sua postura elegante, vertical ... com aquela verticalidade que dá jeito, desde que se lembrem que a gravidade pode fazer escorregar as medalhas que gostam tanto de ostentar. Quando lhes perguntam o que fazem na vida, respondem com orgulho: “sou engenheiro”...

Pobres, não somos nós, meu querido.

Não te preocupes meu amor. Vou conseguir arranjar emprego brevemente e nessa altura vai tudo ser melhor. Fica comigo amanhã. Fica. Também eu tenho medo de te perder. Deus terá concerteza os seus planos para nós, e sabe que eu sou forte, mas sabe também que prefiro morrer contigo. Não vou suportar os dias sabendo que não te terei mais.

Não quero estar à espera de morrer, agarrada à vida apenas porque sou este conjunto de células que teimam em cooperar para proteger a sua sobrevivência. Mas quero, quanto mais não seja, que o vulto do homem à cabeceira da cama nessa altura não me seja indiferente. Nem quero que seja apenas um espaço ocupado por hábito ou por falta de alternativa.

A única coisa que levarei comigo, é a lembrança de como fui amada e amei. Sou tão feliz que chego a ter medo que nesta felicidade incauta tenha falhado uma premonição.

Mas porque havemos de pensar nisto agora? O nosso amor é um milagre irrecusável. Para os dois. Agora estamos aqui e sou a mulher mais feliz do mundo. Tenho tudo. Apropriei-me da felicidade. Agora é tudo meu – as tuas camisas, as tuas meias, as tuas cuecas, o teu cabelo, os teus lábios, os teus sussurros, a tua voz mansa, o teu amor.

Adoro os nossos passeios (naquelas horas digestivas) pela Foz, ou mesmo pelo Norteshoping. Adoro passar a mão pelo teu cabelo em público. Devagar e contemplando esse cabelo espesso e revolto por entre os dedos.

Adoro a confiança com que me olhas quando eu ando pela casa agarrada a ti, e tua paciência quando insisto em pôr-me, descalça, em cima dos teus pés.

Sou tua. Entreguei-me sem medo de ter medo, abri-me. Rio-me feliz enquanto te observo a esvaziar-me de tudo o que tenho e do que nem imaginava que tinha. Tão curiosa como tu, pelo que vamos arrancando.

Espero que o meu amor te chegue. É tudo quanto possuo para te compensar do que não tiveste por mim.

Logo, vou pedir-te para tocares para mim enquanto faço o jantar. Quando chegares, vou ter a banheira à tua espera... cheiinha de espuma. Não, não são sais de banho... descobri que o shampô faz uma espuma do caraças.

Já sinto um aperto de fome por ti. Vou matar as horas que ainda faltam para te ter nos meus braços.

Não, pobres não somos nós, meu querido.