sábado, março 07, 2009
(Dissertação) Líderes e Seguidores
Há dois tipos de relação entre líder e seguidor. Quando o líder gosta de ser admirado e quando o líder gosta também de admirar.
Uma relação entre líder e seguidor tem todas as condições de resultar bem quando a característica principal do líder é gostar de ser admirado e idolatrado.
Nestes casos, o líder necessita de um seguidor não activo. Antes reactivo a tudo o que o líder faz e decide. O seguidor é normalmente uma pessoa sem vida própria e incapaz de construir algo sózinho, tendo como principal característica a reverência à vida do líder. Às suas opiniões, às suas decisões e às suas conquistas. Venera-o de forma absoluta, sem questionar sequer a razoabilidade e coerência de cada passo dele.
Por outro lado, quando o líder gosta de admirar, escolhe um seguidor com vida própria. É normalmente uma pessoa cuidada e também independente. Tem hobbies e uma vida profissional satisfatória. É um seguidor activo.
Este seguidor reage da mesma forma que o anterior no que diz respeito à reverência e à veneração, mas cativa o líder com a sua vida correcta e preenchida. Apesar disso, não o coloca nunca em questão.
Temos por fim as relações entre líderes. Líder com líder. Esta relação é a mais perfeita de todas, mas também a mais difícil de fazer resultar. Torna-se uma máquina perfeita quando os objectivos de vida são totalmente comuns.
Neste caso, obtemos uma equipa combativa, forte, unida, cheia de objectivos comuns, perseverante, resistente, apoiada em dois blocos precursores e auto motivada, capaz de edificar os mais complexos sonhos e ultrapassar as mais difíceis dificuldades.
Porém, sempre que os objectivos mais profundos de vida não encontram paralelo, a sua união transforma-se numa luta constante e diária. Sem capacidade para abdicar dos seus caminhos, passarão a vida a forçar o companheiro na direcção que pretendem para si.
Aqui, não há amor que resista ao desgaste, porque a essência de cada um é apenas de líderança. Normalmente, esta relação acaba sem que cada um deles consiga perceber o que verdadeiramente destruiu a união. Pensarão sempre que foi o egoísmo do outro, quando o que esteve em causa foi tão só a capacidade de criar em trilhos distintos.
Para mim esta é a relação ideal. Difícil também. Mas quem se atreve a dizer que a vida fantástica é fácil de obter?
segunda-feira, setembro 15, 2008
(Dissertação) A Paz
A paz é um desses equilíbrios e, de todos eles, o mais difícil de alcançar.
Em primeiro lugar, porque é muitas vezes resultado final de outros equilíbrios e por isso muito dependente de factores externos.
Depois, porque sempre foi necessária uma grande maturidade para que cada individuo possa ter a exacta noção dos factores de que depende a sua paz.
Apenas com maturidade é possível ir criando e aperfeiçoando um modelo seguro ou caminho para a paz.
É necessário também um enorme conhecimento interior e uma grande capacidade de auto análise e de reflexão (apenas possíveis através da maturidade), pois sem o dissecar do que somos, não é possível elencar os factores necessários para atingirmos a paz.
Para além da maturidade de que falei, importa também perceber que a clarividência com que vemos o que realmente importa nesta vida é outro dos aspectos que, ao lado da maturidade, vai influenciar a facilidade ou a dificuldade com que atingimos e mantemos a paz.
Todos sabemos que a vida contém desilusões, episódios tristes, dificuldades, injustiças e marginalidades e, ao percebermos o que é realmente importante para nós, teremos também a possibilidade de reorganizar internamente estes acontecimentos e de lhes retirar uma parte do peso e da sua importância negativa.
Abordamos então a maturidade e a clarividência como base fundamental para conseguirmos experimentar a paz. Olhemos para elas como características necessárias para a construção do caminho que nos leva até ela.
Convém também referir que entendo a paz não como uma sensação transitória, mas como um estado de espírito estável.
E a paz não pode ter uma decomposição universal, pois ela será certamente demasiado heterogénea aos olhos do universo humano.
Mas a paz tem uma linha própria. Uma linha com uma imensidão de itens. Aqui ficam alguns dos que considero mais importantes:
- Aceitem as vossas limitações, sejam elas físicas ou de outra ordem
- Aceitem a solidão exterior, mas cultivem a vossa companhia intelectual
- Afastem os sentimentos negativos, pois eles são corrosivos da alma
- Apreciem as diferenças nos vossos semelhantes, pois podem sempre aprender com elas
- Abram o vosso espírito ao novo e não o temam, pois vida é novidade
- Procurem sempre a harmonia, porque ela é como que o chão da paz
- Aceitem a derrota, mas procurem sempre melhorar
- Aceitem uma recusa, mas não se recusem a vós próprios
- Persigam os vossos sonhos, pois só assim terão uma vida com significado
e
- Ajudem quem hoje precisa, porque ajudar também faz bem à alma
Acrescentem a estes itens os vossos. Retirem alguns. Ficarão com o vosso guião para caminhar em direcção à paz.
Porque, por vezes, alcançar a paz pode ser mais fácil do que parece.
domingo, setembro 14, 2008
(Dissertação) Insultos
Todos sabemos que o ser humano está longe da perfeição. Os melhores procuram-na, os piores não perdem tempo com ela.
A raiva, o desespero, o desequilíbrio momentâneo e a precipitação fazem parte dos defeitos que podemos atribuir ao Homem.
De uma forma ou de outra, todos nós acabamos por experimentar a desagradável sensação de qualquer um deles.
Mas, se por um lado não há forma de os evitar, o modo como nos portamos perante esta invasão do nosso espírito pode fazer toda a diferença. E, no limite do mal feito, ainda existe a explicação e a desculpa sentida. Porque os super heróis nunca existiram.
O insulto serve muitas vezes de escape à agressão do nosso espírito. E mesmo quando fundamentado, não deixa de parecer uma forma infeliz de actuar perante terceiros.
Há ainda outros insultos, motivados pela maldade.
Normalmente, estes últimos são pronunciados de forma totalmente gratuíta e com requintes de malvadez. Pretendem com eles fazer mossa e incomodar a paz de terceiros.
Na maior parte dos casos, estes insultos são perpetuados de forma anónima, tentando assim passar a ideia de que os mesmos podem vir de meio mundo à volta dos visados, ou seja, não só daqueles já reconhecidos como desequilibrados, mas também levantar a suspeita sobre todos os ditos normais.
Mas, nos casos em que os mesmos têm origem conhecida (porque também os há), o retorno das consequências não é normalmente medido antecipadamente pelo agressor.
E, da mesma forma que uma indumentária nos fornece pistas sobre a personalidade de uma pessoa, também os tipos de insultos as acabam por caracterizar.
Os insultos motivados pela maldade indicam normalmente o carácter da pessoa que os originou.
Curiosamente, acabam por quase nunca fazer mossa aos visados e por irremediavelmente votar ao isolamento os audazes de tamanha façanha.
E este isolamento passa pela necessária perda dos factores que nos fazem respeitar e admirar alguém.
Ponderação, equilíbrio, sentido de justiça, maturidade e compreensão são alguns deles.
Todo o mal tem um perdão. O insulto maldoso também. Mas não há perdão que permita neste caso reconstruir o respeito e a admiração.
terça-feira, dezembro 11, 2007
(Dissertação) Linhas do Nosso Ser - Parte I
Poderão existir variadas linhas com enúmeras métricas associadas mas, quanto a mim, o nosso ser enquadra-se em quatro grandes linhas de vida. E é sobre elas que constrói, dia após dia, a imagem pela qual será conhecido.
Começo assim por tentar tipificar o nosso ser nessas quatro grandes linhas: na linha ideológica, na linha emocional, na linha estética e na linha comportamental.
Sobre a linha ideológica recaem os nossos pensamentos e acções sobre o quotidiano, sobre as várias vertentes da sociedade e por vezes sobre os destinos profissionais que escolhemos trilhar, sempre que associados a uma ideologia.
A linha emocional diz respeito à forma como encaramos as relações, profissionais e pessoais, à forma como lidamos com os acontecimentos da nossa vida e à forma como lidamos com as amizades e com os amores.
Por outro lado, a linha estética guia as nossas escolhas em termos de beleza e de harmonia visual, a forma como nos tratamos e como nos vemos, a nós e aos outros.
Por fim, a linha comportamental assenta, quanto a mim, sobre as outras três linhas e é precisamente esta linha que nos desenha a verdadeira imagem que têm sobre nós. Encaro-a como a grande parte visível do nosso ser, a parte responsável pela comunicação com o exterior.
Sendo ela a parte de nós que comunica com o exterior, é também responsável por reunir os dados das partes ideológica, emocional e estética, e traduzi-los em linguagem comunicante para fora de nós. Assim, é ela que alimenta a forma como os outros nos encaram enquanto pessoa.
Tenho para mim que a linha comportamental de cada um deve ser estudada pelo próprio de antemão. Deve ser bem pensado o caminho que pretendemos para a mesma e deve ser construída uma corda de sustentação que nos guie no dia a dia. Acredito ainda que devemos esticar ao máximo a corta da nossa linha comportamental por forma a não ceder a tentações e não desviar daí o nosso rumo.
Devemos também lembrar-nos sempre que o passado faz parte de nós e que a sua linha comportamental indica claramente as nossas fraquezas e virtudes, precisamente porque é a parte de nós que tem contacto com o exterior.
Analisemos, nesta Parte I da Dissertação Linhas do Nosso Ser, o aspecto amoroso da nossa linha comportamental (criada com os dados da linha emocional) e tentemos perceber o que pode ela indiciar sobre nós.
Várias relações fugazes ao longo da nossa vida normalmente denunciam um conjunto de problemas, desde uma falta de auto-estima, uma precipitação por carência, a não noção do que realmente se quer, uma dificuldade em compreender quem é o parceiro e a impossibilidade de perceber as suas reais intenções (porque o pouco tempo nunca o permite), uma fraqueza sentimental e sentimentos pouco profundos (porque se gosta de muitos por pouca coisa).
Neste caso (no das pessoas com muitas relações) não falo de ausência de sentimentos, mas sim e necessariamente na fraqueza e debilidade dos mesmos, pois é improvável poder amar dezenas de pessoas numa única vida (eu não acredito).
Por outro lado, uma linha comportamental estável, segura e coerente indica quase sempre uma grande clarividência naquilo que se quer para nós, uma posse de um sentimento forte e estável que não cede à solidão e à carência, índices de auto estima vincados, valores claros e uma determinação muito forte.
Sendo certo que o difícil é encontrar a companhia certa para toda a vida (porque encontrar uma companhia qualquer é sempre mais fácil), é então normal que procuremos por uma linha comportamental digna e que denote estabilidade no parceiro. Do mesmo modo, também o parceiro procurará certamente algo de idêntico, pelo que temos de cuidar bem da nossa, sendo que ela será determinante para o futuro.
Neste contexto, e da mesma forma que pretendemos encontrar alguém especial, também esse alguém procurará uma outra pessoa especial em nós.
Ter uma corda esticada ao máximo na nossa linha comportamental, significa cuidar da nossa imagem ao não ceder a comportamentos precipitados. Significa também escolher o momento certo para apostarmos numa vida a dois. E esse momento certo só acontece depois de termos tido o tempo necessário para conhecer quem está do outro lado e, da mesma forma, quando o outro lado teve o tempo necessário para nos conhecer em profundidade a nós.
Quem ama sabe esperar. E quem for realmente especial irá ver nessa linha de comportamento a constância que pretende para a sua relação. Por outro lado, quem procura apenas um momento inconsequente não terá a paciência necessária para esperar, porque encontrará outras companhias mais fáceis de aliciar. E logo aqui estaremos a separar o correcto do precipitado. Sem esforço.
Se o que nos move é apenas encontrar "uma" companhia para a vida, certamente que não teremos de agir assim, mas se o que procurarmos for "a" companhia, então não será com qualquer outra linha comportamental que a iremos cativar.
Sei que não é um caminho fácil. Mas, que me lembre, é o único caminho que nos poderá levar a conhecer alguém realmente especial. Cada qual escolhe o caminho que quer trilhar, mas é bom que o escolha com consciência do fim da linha que o espera.
Uma grande parte das pessoas não mede as consequências dos seus actos porque acham que irão um dia pertencer ao passado. Mas, ao contrário do que pensam, o passado também diz quem hoje somos. E é nesse somatório de actos inconstantes, impensados, incoerentes e inconsequentes que por vezes os outros não se revêem.
Essa é a imagem que iremos transportar para o resto da vida.
sexta-feira, novembro 23, 2007
(Dissertação) Momentos Decisivos
Não raramente, essas avaliações colocam-nos perante a necessidade de ajustar os nossos caminhos, procurando formas alternativas de, mesmo assim, atingir os objectivos a que nos propusemos.
No entanto, aqui ou ali, as mudanças são de tal forma tão radicais, que colocam em causa o atingir dos mesmos, pelo menos com os meios e pessoas que tinhamos antes pensado.
A vida, por não ser estática e por não depender apenas de nós (porque envolve sempre terceiros), altera frequentemente várias variáveis que fogem ao nosso controlo.
E a reacção a todas estas mudanças coloca-nos por vezes perante momentos decisivos.
Momentos onde as nossas decisões farão certamente ajustar os nossos rumos por forma a continuar no caminho dos nossos objectivos iniciais, ou alterar de forma radical o resultado final.
Decisivos porque uma alteração ao resultado final esperado nos coloca definitivamente fora do caminho inicial e nos obriga, muitas vezes, a alterar os meios e os recursos no caminho que pretendemos nos leve ainda aos objectivos definidos, ou a estabelecer inclusivé novos objectivos, invalidando assim por completo todo o caminho construído até então.
São, em definitivo, momentos decisivos.
Não conheço pessoa que goste de ser colocada numa posição destas. Mas conheço pessoas que não se acobardam perante estes desafios e os encaram até como novas oportunidades que a vida nos dá para refinar objectivos iniciais.
Mesmo por obrigação, e se com a atitude certa, o refinar de objectivos pode ser visto como uma oportunidade de melhorar.
Ninguém escolhe as dificuldades (apesar de poderem ser semeadas ao longo da vida), as vicissitudes ou as desgraças que a vida nos impõe. Mas todos sabem que estão sempre sujeitos a elas, porque não há forma de as controlar.
Assim, da mesma forma que os momentos decisivos são normalmente fruto de alterações externas, a maneira como reagimos às mesmas é fruto da nossa consistência interna.
E a nossa consistência interna assenta nas bases que fomos construindo dentro de nós ao longo da nossa vida.
Importa aqui perceber que o nosso carácter, a nossa força, a nossa resistência à adversidade, a nossa maturidade, a nossa atitude, a nossa postura e a nossa coragem serão chamadas a actuar e serão determinantes em cada momento decisivo.
E a solução encontrada para esse momento decisivo depende, na sua grande parte, das características de que somos feitos.
Trabalhemos então, todos os dias, a nossa base interior, porque aqui ou ali, ela será chamada a actuar e será determinante na construção de cada novo caminho.
Sempre acreditei que a mudança é uma dádiva da vida. Estejamos então bem preparados para ela.
domingo, novembro 18, 2007
(Dissertação) Rumos
E pode esse trilho estar mais perto ou mais longe dos objectivos que traçamos para nós, consoante fomos trilhando rumos que nos aproximaram ou afastaram dos mesmos.
A falta momentânea de um rumo é frequentemente responsável por diversos afastamentos aos nossos objectivos de vida. Porque sem um rumo definido, as nossas acções vagueiam num espectro mais amplo e por vezes são responsáveis por trilhar caminhos contrários aos que desejamos.
A falta de um rumo deixa-nos à deriva e ao sabor de movimentos e direcções que, sendo muitas vezes da nossa responsabilidade, não estão alinhados com um plano.
Podemos chamar, ao conjunto de rumos que traçamos para a nossa vida, de plano, plano que nos poderá conduzir aos nossos objectivos.
Mas um plano ainda é mais do que isso.
A cada rumo traçado devemos associar um conjunto de acções que nos garantam a permanência no mesmo e um conjunto de acções perigosas que certamente nos afastarão da sua direcção.
Não precisamos de planos detalhados e complicados, mas sim de linhas mestras de actuação. Com elas evitamos muitas vezes precipitações que nos alteram ou fecham mesmo alguns caminhos.
As precipitações e as acções não ponderadas são quase sempre responsáveis pelas enormes distâncias entre o local onde estamos e o local para onde pretendemos ir.
E porque tudo o que não é ponderado tem impacto muitas vezes negativo em terceiros e, por sua vez, esses terceiros podem ter impacto sobre o caminho das nossas vidas.
Os terceiros funcionam várias vezes como elementos facilitadores ou como elementos dificultadores nas direcções que pretendemos tomar.
Não precisamos de nos subjugar à vontade de terceiros, mas podemos sempre evitar que se tornem elementos dificultadores activos. Basta para isso que pelo menos todas as nossas acções que sobre eles podem ter impacto, tenham sido ponderadas de forma antecipada.
Chegar com sucesso aos nossos objectivos de vida é sempre uma tarefa árdua e está sujeita a inúmeros factores que não controlamos, mas a existência de rumos é, definitivamente, um passo de gigante na sua direcção.
quinta-feira, outubro 18, 2007
(Dissertação) Paragens da Vida
Paramo-la para repensar o nosso Eu, a nossa vida profissional ou a nossa relação sentimental.
Paramo-la pelo cansaço, pela desilusão, pela confusão, pelo medo ou até por nos sentirmos momentaneamente perdidos.
E se essa paragem pode parecer benéfica, há riscos que convém não esquecer.
Se sempre nos assiste o direito de parar a nossa vida, assiste o direito à vida de não parar por nossa causa (porque ela não pára mesmo) e assiste ainda o direito a outros de não ver a sua vida parada por causa da nossa paragem.
Nestes hiatos causados pela paragem de algo e movimentação do restante, criam-se buracos e vazios de informação entre ambas as partes, responsáveis por um afastamento posterior devido à ausência de partilha.
Criam-se assim desconfianças, medos, interrogatórios difíceis de fazer e por vezes de respostas contrafeitas, criam-se distâncias, dores e dificuldades pelos caminhos seguidos pela parte em movimento, cujo orgulho raramente deixa passar em claro.
As paragens de uns são muitas vezes o cemitério dos restantes, porque para esses fica para sempre a incompreenção pela falta, pelo abandono e pela ausência.
E numa vida que se pretende feita de ajuda, de complementariedade e de comunhão entre as partes, uma paragem unilateral tem quase sempre um efeito letal.
Todos sabemos que a vida é movimento. E o movimento implica direcções, caminhos, avanços e recuos, acontecimentos, conhecimentos e decisões que mudam quase sempre o quadro inicial.
Há decisões amadurecidas, decisões por intuição e decisões impensadas.
Decidir parar é muitas vezes uma decisão corajosa e outras vezes uma decisão inconsciente. Porque antes de parar torna-se necessário perceber muito bem qual o impacto dessa paragem nos terceiros que se movem e qual o impacto do movimento de terceiros em quem vai decidir parar.
Invariavelmente, todos querem parar sem arriscar perder. Mas a perda estará sempre presente, no curto ou no médio prazo, porque a vida seguiu entretanto para ambos e por caminhos diferentes.
Há mesmo riscos que convém não esquecer.
quinta-feira, agosto 16, 2007
(Dissertação) Vidas Diferentes
Desde os primeiros anos de vida que o dia-a-dia de uma criança é feito de descobertas e experiências novas. E estas sensações prolongam-se normalmente até à idade da adolescência.
Após a adolescência, altura em que é mais previsível uma vida repleta de emoções, alguns adultos tendem a diminuir a sua capacidade criativa à medida que envelhecem, concentrando os seus esforços apenas na sua actividade profissional e ocupando o resto do tempo numa permanência muitas vezes quase que obrigatória junto da família (o que é diferente de dizer em família).
Transformaram as suas vidas em algo de mais rotineiro, mais certo, mais rectilíneo, mais expectável e por isso mesmo, menos oscilante. Encaixaram-se na tipificação Previsível.
Quanto a mim, muitos foram sendo aniquilados pelo medo do “novo”, porque o “novo” pode colocar em causa tudo o que está dado como certo e adquirido até ao momento. Esqueceram-se que viver por viver nem sempre é viver.
Do “outro lado” da vida, existem adultos que preenchem a sua vida com diversas actividades para além da actividade profissional e da vida familiar. Estão na tipificação Repleta.
Dedicam-se muitas vezes à cultura (pintura, escrita, leitura, música), aos desportos (ténis, futebol, natação), às viagens e aos trabalhos manuais (jardinagem, olearia, bricolage), entre outras actividades possíveis, enfrentando muitas vezes grandes desafios de pesquisa para ultrapassar dificuldades, à medida que o seu conhecimento aumenta.
São por vezes pessoas auto-didactas, que aprendem por si e para si, para seu único prazer. E, nessa busca incessante de auto-conhecimento, estabelecem métodos, objectivos, caminhos e fórmulas alternativas para superar os desafios.
Tornam-se normalmente, pessoas extrovertidas e optimistas, com uma grande dose de auto-confiança e um carisma distinto. São pessoas com vidas preenchidas, plenas.
Temos então os Previsíveis, os que se acomodam à vida que têm, sem sequer perceberem que o comodismo também é uma espécie de sinónimo de desistência.
Quem se acomoda desiste muitas vezes de viver. Passam a estar apenas vivos, o que não significa exactamente viver.
Quantas pessoas não se acomodam a ideias feitas e a chavões para justificarem perante eles próprios a sua desistência de algo?
Porque para muitos é sempre mais fácil desistir do que ter de lutar por algo, ainda para mais quando o resultado de uma luta e de um enorme esforço, pode ser exactamente igual ao da desistência – a perda.
Quem pretende garantir já hoje que algo possa resultar no futuro, não percebeu ainda a essência de viver: o Aqui e Agora.
É imprescindível perceber a impossibilidade de garantir um futuro sem actuar no Aqui e Agora, pela simples razão de que o futuro não pode ser nunca garantido – mas ele pode ser trabalhado a todo o momento, no Aqui e Agora – e isso dá trabalho, muito trabalho, não oferecendo garantias para além da consciência de se estar a tentar.
É também essencial encarar o “novo” como um desafio e não como uma ameaça a um aparente bem-estar. O homem pode ser considerado maduro quando reconhece que é o único responsável pelo que lhe acontece. E o que lhe acontece deveria estar sempre relacionado de alguma forma com o “novo”.
Os homens Previsíveis tendem a justificar o fracasso com factores externos, com coisas que não podem controlar. Mas, na maioria dos casos, os insucessos são fruto das suas próprias desistências.
Alguém se revê nas frases “deixei de acreditar que esta relação possa dar certo”, “deixei de acreditar que este emprego me dê futuro” ou “deixei de acreditar na vida que levo”?
Na grande maioria dos casos, o fracasso acontece porque focamos as nossas expectativas apenas no que a outra parte pode fazer, esquecendo-nos da contribuição que nós próprios poderíamos e deveríamos ter dado.
É uma postura egoísta, que conduz invariavelmente ao fracasso mas que, curiosamente, não costuma causar grandes danos em quem perde. E porquê?
Porque se arranjam as defesas necessárias para culpar factores externos, como os outros, as circunstâncias ou a falta de meios.
Em contrapartida, são pessoas Repletas, com uma vida mais colorida e mais cheia de acontecimentos, as que atingem o sucesso.
E a grande diferença normalmente reside em dois factores: na atitude e na capacidade de perceber que somos nós próprios os únicos responsáveis pelo que nos acontece, a que chamo maturidade.
A atitude certa leva-nos sempre a ser mais persistentes e mais perseverantes, leva-nos a acreditar mais e a não desistir enquanto sentirmos que algo ainda depende de nós.
A maturidade dá-nos a capacidade de perceber que somos nós próprios os únicos responsáveis pelo que nos acontece.
Sem desculpas externas às quais recorrer, sem desculpas que nos possam iludir sobre a responsabilidade do fracasso, a nossa forma de agir fica mais orientada para o sucesso, muitas vezes porque é apenas o único caminho que nos resta.
domingo, junho 24, 2007
(Dissertação) Crianças Especiais
Curiosamente, sempre estive muito próximo delas. Porque convivi aqui ou ali em pequeno com algumas e porque precisamente nessa altura a educação e intervenção dos meus Pais foi essêncial e determinante na forma como passei a olhá-las.
Nunca desde esse momento as vi como detentoras de algum handicap em relação às outras, mas apenas como diferentes num aspecto concreto, como aliás todos nós, ditos "normais", somos diferentes aqui ou ali dos demais.
Durante todas as etapas do meu crescimento até chegar à idade adulta, a forma de as olhar foi ganhando novas dimensões, tornando-se hoje muito mais globalizadora, encerrando por isso no seu âmbito um conjunto muito mais vasto de meninos e meninas especiais.
E a minha atitude perante estas pessoas passou a assentar numa maior atenção, carinho e cuidado.
Devemos lembrar sempre que alguns dos factores que determinam a nossa auto-estima estão relacionados com os inputs do mundo exterior, ou seja, com a forma como o mundo que nos rodeia interage connosco, uma vez que essa interacção nos pode condicionar a forma como nos vemos em determinados aspectos.
Passei assim a dirigir uma palavra diferente ou piropo apenas às pessoas menos bonitas, às menos magras, às mais inseguras e às especiais, mesmo tratando-se de totais desconhecidas para mim. E sempre recebi delas um enorme sorriso. Eu sei o porquê.
Por coincidência, passei há uns anos por uma experiência determinante no sentido de perceber se esta minha atitude era válida para terceiros apenas, ou se se aplicaria também às futuras pessoas do meu próprio sangue.
Na altura, a médica que me acompanhou informou-me sobre o sindrome de Down, dos riscos reais que existiam e aconselhou-me a pensar nas possíveis acções a tomar a curto prazo.
Não tive dúvidas nenhumas. Não precisei sequer de tempo para pensar. A minha atitude estava cimentada no mais profundo de mim: na minha alma.
Quis aquela criança mais do que tudo e já imaginava até as alegrias que uma criança especial nos concede a nós, adultos.
E aos mais cépticos deixo aqui uma mensagem muito clara: sei do que falo por tudo o que passei e que, por mero acaso e apenas por isso, teve como corolário o nascimento de uma criança perfeitamente "normal", se normal fôr entendido como "não especial".
Aprendi ao longo da vida a admirar as Mães e Pais que aceitaram estas crianças (que as quiseram mesmo) e aprendi a olhar para elas (para as crianças) da única forma que me parece justa.
São crianças por natureza felizes, meigas, atentas, inteligentes no nosso mundo e fieis aos sentimentos.
Nasceram puras como todos nós, mas não se perdem na ganância, no egoísmo e na mentira do mundo dos adultos.
Nascem crianças, mas não passam a vida adulta a querer retornar à sua origem de criança, ou seja, a viver uma vida no Aqui e Agora, pura no sentimento e verdadeira na intenção.
Para elas não há retorno para ambicionar porque vivem em permanente estado de graça.
E por isso as amo, lhes dedico amor e atenção, tento aprender com elas e as considero Especiais.
Sim, porque há mesmo crianças especiais.
terça-feira, março 15, 2005
(Dissertação) O Aqui e Agora
O passado é tudo aquilo que já aconteceu, tudo aquilo que já foi e, portanto, tudo o que está morto. Por já ter acontecido, tornou-se imutável, inalterável.
A parte de nós que lida com o passado é a memória, e a memória não é mais do que o passado acumulado.
O próprio pensamento é baseado no passado. A arte de escrever baseia-se no conhecimento e, por sua vez, este representa tudo o que é conhecido. E o que é conhecido assenta apenas em tudo o que já sabemos e vivemos, no acumulado do passado que guardamos na nossa memória.
Sobre isso, pensamos, tiramos conclusões, levantamos dúvidas, questionamos e escrevemos. E, amanhã, tudo o que escrevemos pode deixar de fazer sentido porque, no entretanto, conhecemos e aprendemos mais ou, pelo menos, estamos capazes de o fazer.
Da mesma forma, quem constrói regras baseia-se no que conhece, ou seja, no passado, para as elaborar. E essas mesmas regras, porque baseadas no passado, podem ter vida curta - não se podem aplicar ao que já passou, porque é passado, e dependem do que aí vem, dos próximos acontecimentos, para continuarem ou para deixarem de fazer sentido.
Não nos deviamos basear em regras - elas são fruto do passado. Cada decisão a ser tomada, tem de ser tomada num determinado momento, fruto das circunstâncias do mesmo. E tem de ser tomada de novo a cada momento, com circunstâncias diferentes. Não há regras para isto - só os ignorantes dependem de respostas feitas por medida para tomar decisões; não precisam de ser inteligentes porque vivem agarrados ao passado.
E é bastante fácil e cómodo viver agarrado ao passado. O novo traz o desconhecido e, por arrasto, a insegurança.
Põe em causa o que sabemos até à data, coloca em perigo o que temos e faz-nos ter medo de perder o que já construimos.
O novo traz-nos o medo e o medo, por vezes, impede-nos de viver. Quem gosta de viver com certezas não está realmente a viver - está apenas agarrado ao que já conhece, ao passado, ao que está de alguma forma seguro.
É por isso que muita gente vive grande parte da vida através da memória, colada ao passado. Guardam em baús tudo o que já foi, tudo o que já morreu e acham que recordar é viver. Vivem das coisas mortas e transportam esse enorme lixo com elas.
Mas recordar é usar todo o passado que constitui a memória, não é viver. Recordar pode fazer parte da vida, tal como sonhar faz, mas não é viver.
Ainda há os que guardam todo o tipo de recordações do passado sem que, no entanto, façam uso delas. Transportam uma enorme quantidade de lixo já morto, sem aplicação alguma no que deverá ser a sua vida.
Têm uma enorme dificuldade em libertar-se do que já passou, do que está morto. Por comparação, podemos imaginar alguém que compra mobília nova, nunca se desfazendo da antiga. Não há como conciliar as duas - é perda de espaço, perda de vida, vida que deveria ser simples, leve e bela.
Quem gosta de viver com certezas não está realmente a viver - está apenas agarrado ao que já conhece, ao passado, ao que está de alguma forma seguro.
Alguns pretendem uma vida programada, algo que lhes dê a certeza de que o futuro pode resultar. E isso, na verdadeira vida não existe.
É necessária muita coragem para viver porque é preciso aceitar o novo, o desconhecido. E, como já referi, o novo e o desconhecido trazem medos e incertezas, pondo em causa o que já temos e o que já assumimos como verdadeiro.
Assim, o passado não existe e o futuro constroí-se momento a momento, no aqui e agora.
A cada momento vivido, o futuro torna-se presente e o presente torna-se passado, não tendo já alguma possibilidade de ser alterado porque já foi usado.
E esta é a verdadeira riqueza do aqui e agora: a capacidade única que detém para mudar o curso dos acontecimentos, para construir o futuro que rapidamente se tornará passado.
Nada se pode mudar no futuro. O futuro é apenas o resultado do que fazemos no aqui e agora.
Adiar para depois, não fazer hoje, não tentar hoje, não dizer hoje, não lutar hoje, dizer que se fará num outro dia tem, ao contrário do que muitos pensam, um impacto enorme e directo no futuro.
O resultado dessas ausências no aqui e agora não adia o futuro que neste preciso momento se torna presente e, pela ausência de qualquer acção, não alterou os factos passados.
Os factos passados persistem e, se forem problemas, continuarão exactamente como dantes - problemas.
E o pensamento, que é baseado no conhecimento do passado, julga no aqui e agora, no presente, pelos actos que conhece.
O aqui e agora é o único momento em que podemos alterar o futuro - não há forma de adiar e pretender ao mesmo tempo obter resultados diferentes.
No aqui e agora não há futuro. É mesmo necessário assimilar que não há futuro. O futuro é antes construído no aqui e agora, nas palavras, nos actos e nas omissões de hoje. Ele é feito com cada momento instantâneo do aqui e agora, tornando-se logo presente.
A vida é o aqui e agora. Na vida é permitido sonhar e pensar no futuro. Mas é no aqui e agora que os nossos sonhos se constroem e que o futuro que pensamos para nós se pode tornar presente.
Viver é ter a capacidade de estar no aqui e agora. Viver não é mais do que estar no aqui e agora - por isso é tão importante falar, dizer, agir, fazer, lutar, agarrar, não adiar, no aqui, agora.
E vocês, onde vivem?
domingo, dezembro 19, 2004
(Dissertação) O Prazer de Comunicar
Na sua essência, a arte de comunicar já detinha tudo o que necessitava para evoluir - usava a voz, os movimentos faciais e corporais e também a imaginação.
Com o aproximar de várias civilizações pela utilização de meios de locomoção que permitiram as cruzadas e outras viagens de exploração, poder comunicar tornou-se imprescindível ao ser humano.
Nos dias de hoje, a globalização trouxe o penúltimo desafio ao Homem - comunicar numa única língua, sendo que o último desafio para a Humanidade talvez seja o de um dia comunicar com outras civilizações, não pertencentes ao nosso mundo.
Mas comunicar, para além de aproximar civilizações, assume também um papel preponderante a outro nível - o pessoal, nomeadamente no estabelecimento de relações, no fortalecimento de laços afectivos e na expressão das nossas necessidades sentimentais.
E, para isso, não basta poder comunicar, é necessário saber fazê-lo, é necessário saber comunicar.
Apesar de todos nós vivermos rodeados por outras pessoas, não é raro encontrarmos pessoas que vivem isoladas em si mesmas, numa completa solidão. São pessoas incapazes de exprimir de forma correcta as suas vontades, sentimentos, alegrias, medos e frustações.
Podemos dividi-las em dois tipos:
As primeiras, apesar de comunicarem frequentemente, experimentam várias dificuldades na fidelização de relações e na criação de laços afectivos fortes.
Mesmo não tendo dificuldades de expressão oral, apresentam um outro tipo de dificuldades, normalmente de ordem afectiva e psicológica.
São pessoas inseguras, indecisas e com pouco amor próprio.
Provavelmente sofreram, durante algum período de suas vidas, repressões de vária ordem, perdendo aos poucos confiança em si mesmas.
Muitas delas são pessoas extremamente válidas, mas com barreiras internas que muitas vezes impedem o estabelecimento de uma relação afectiva normal.
Necessitam de se libertar, mas para isso terão de dar o primeiro passo - aprender a saber comunicar.
As segundas, têm dificuldades na expressão oral e, como tal, pressupõem que não têm o poder da comunicação.
Aclaremos então um ponto, o ponto principal:
Uma óptima expressão oral não é pré-requisito para saber comunicar - normalmente, saber comunicar tem relação directa com tempos, escolhas e atitudes.
Quer isto dizer que, para sabermos comunicar, temos de saber em que alturas devemos falar, em que alturas devemos fazer e em que alturas não devemos nem falar, nem fazer.
Implica também perceber que a palavra complementa apenas a acção, nunca a substituindo, pelo que o acto de fazer vale muito mais do que simplesmente falar (de que adianta dizermos várias vezes que amamos determinada pessoa quando as nossas acções são de desrespeito, afronta ou indiferença?).
E falar não implica a utilização de frases complexas, mas antes a utilização de diálogos claros, francos e directos.
Em suma, a arte de bem comunicar pressupõe que saibamos quando agir em vez de falar, quando falar em vez de agir (de forma transparente e verdadeira) e quando não falar e não agir.
Não há relação sentimental que resulte em pleno quando não se sabe comunicar. A Amizade, a Honestidade e a Cumplicidade necessitam do tipo de comunicação de que falei.
E estas três, juntas com o Amor e o Tempo são a base da Relação Feliz.
Não há como fugir, e comunicar pode dar um enorme prazer, vamos todos experimentar?
quarta-feira, dezembro 01, 2004
(Dissertação) Bons e Maus Pais - II
Talvez fruto de uma consciêncialização crescente da sociedade sobre temas que abordam a importância de um tempo de qualidade e de um maior acompanhamento das crianças, muitos Pais caíram no erro de dar um relevo exagerado às vontades dos filhos, submetendo as mais variadas decisões (decisões essas de sua única responsabilidade), ao seu escrutínio.
Quando aliado a uma nova moda de frisar que os melhores amigos dos Pais são os filhos, esse erro acaba por esvaziar o poder parental e, por consequência, enfraquecer quem deve ser o garante da educação, ou seja, os próprios Pais.
A preponderância que a opinião de uma criança assume em diversas escolhas familiares e o seu carácter muitas vezes decisivo, leva-me a concluir que há Pais que, ao contrário do que se passava no passado, delegaram nas crianças um poder que nunca lhes deveria assistir.
Nestas famílias, a criança obteve um papel central e decisor, muito à margem do que seria aconselhável, relegando para um segundo plano, as vontades dos seus progenitores e, o que em determinadas alturas, seria o mais acertado.
Intervêm nas compras de supermercado exigindo alimentação não aconselhável, na escolha de roupas de gosto duvidoso (quem já não reparou nas crianças que compraram uma determinada peça de roupa que, em qualquer outra situação não seria nunca escolha dos seus Pais?) e por vezes na escolha do destino de férias de todo o agregado familiar.
São Pais de autoridade frágil, que não distinguem atenção de subserviência e assim vão cedendo aos mais diversos caprichos dos seus filhos, sem saberem como lhes negar desejos e vontades.
E assim, assistimos hoje a uma completa confusão no que diz respeito à educação de um filho: confundem-se cedência com flexibilidade, imposição com autoridade, subserviência com atenção e opinião com decisão, entre algumas outras.
Todos os Pais devem ser flexíveis sem no entanto cederem a caprichos, devem exercer autoridade enquanto Pais sem a confundir com imposição, devem dar atenção aos desejos dos seus filhos ser serem subservientes com os mesmos e devem ouvir a sua opinião sem no entanto fazer dela necessariamente decisão.
É necessário saber educar com amor, atenção, compreensão e carinho, mas também com autoridade, rigor e disciplina. É desta mistura em quantidades certas que nasce uma educação salutar e eficiente.
Será que estamos todos capazes desta tarefa?
quinta-feira, outubro 28, 2004
(Dissertação) Bons e Maus Pais - I
Estou certo de que, mesmo deixando de fora os casos a que chamo de desvio funcional do laço parental, existem vários Pais que falham de forma contundente a sua missão.
São estes os casos que vamos tentar analisar, começando por enumerar as necessidades de uma criança, aquelas que poderão influenciar de forma decisiva o seu crescimento.
Para além de alimento, de roupa e de educação escolar, todas as crianças necessitam de um acompanhamento equilibrado, num misto de atenção, cuidado e carinho.
Necessitam também (e já o referi no texto Bases da Relação Feliz), de um ambiente estável e bem alicerçado, porque é nesse ambiente que crescem, se desenvolvem, aprendem e tiram lições para a vida.
Provavelmente, este acompanhamento equilibrado será em parte responsável pela sua auto-estima, pela sua confiança e espírito de liderança, pela forma como desenvolvem relações com terceiros e pelo modo como encaram e reagem às adversidades.
Apesar de acreditar que parte destas características possam ser de alguma forma inatas em algumas crianças desde o seu nascimento e, portanto, fruto dos genes que transportam dentro de si, também acredito que todas elas podem ser trabalhadas e desenvolvidas nas crianças que não as possuem logo à partida.
E é precisamente aqui que reside a grande missão dos Pais – ajudar os filhos a superar dificuldades e inaptidões, não os substituindo nesses desafios, mas sim preparando-os para serem seres capazes e autónomos na forma de os enfrentar.
Neste aspecto, podemos tipificar os Pais em três grupos: os Pais que não sabem ensinar e preparar, os Pais que acham que ensinar e preparar é executar todo o tipo de desafios pelos filhos e, portanto, em sua substituição e os Pais que ensinam e preparam através da orientação, dando liberdade de acção de forma equilibrada à criança.
No primeiro grupo, estão aqueles Pais cujo tipo de vida egocentrista os torna de tal forma egoístas que não lhes permite investir tempo algum no acompanhamento dos filhos e, como tal, substituem a sua atenção recorrendo às baby siters, aos Avós, às televisões, aos filmes, às Play Station e aos Game Boy, de forma constante e recorrente.
Não que eu considere que os chamados jogos de computador sejam prejudiciais às crianças, antes pelo contrário. Estou certo que em termos gerais estimulam o seu desenvolvimento, atenção, destreza e os preparam de forma natural para o futuro que os espera - o das tecnologias de informação.
No entanto, a forma constante e recorrente com que alguns Pais substituem o acompanhamento dos filhos por terceiros e pelas tecnologias existentes é que deve ser entendida como preocupante, porque reveste uma forma de abandono e de isolamento.
Infelizmente, para estes Pais tudo parece servir para os manter calados, ocupados, distraídos e sossegados, permitindo assim que lhes sobre tempo para o que têm de mais importante - não os seus filhos, mas antes a sua própria vida.
E nenhum ser humano, quando se torna Pai, deixa de ter vida própria (continua a tê-la e deve mantê-la também). Mas a sua vida própria comporta agora uma outra responsabilidade - a educação e acompanhamento de um filho.
Até determinada idade, o amor dos filhos pelos seus Pais é incondicional e o tipo de Pai que somos não tem influência redutora nesse amor. No entanto, isto não significa que os filhos não sintam esta forma de abandono e que, dia após dia, não sofram com as constantes expectativas defraudadas por não poderem estar mais uma vez com o seu Pai (e estar é estar em comunhão, em partilha).
Mais tarde, quando a criança desenvolver o seu sentido crítico, julgará o Pai que tem e, deste julgamento, nenhum dos Pais está livre.
Acredito que estes Pais não tenham sequer ideia do que se pode passar dentro das cabeças das suas crianças; talvez pensem que são pequenos demais para se aperceberem de tudo o que os rodeia. Mas é precisamente entre os três e os seis anos de idade que as crianças estão mais receptivas a assimilar tudo o que se passa no exterior, à volta do seu mundo que, ao contrário de ser pequeno, cresce exponencialmente de dia para dia.
Estas crianças ficam por vezes com marcas de insegurança e várias carências de ordem afectiva que lhes prejudicará a construção de relações futuras.
Se no Pai que vive com a mãe dos filhos, estas falhas podem ser atenuadas (e apenas atenuadas) pela presença da progenitora, no caso do Pai divorciado, a proporção dos danos é bastante superior, porquanto o Pai negligencia de forma sistemática o único tempo que tem para acompanhar os filhos.
É assumido que a vida do Pai divorciado deve mudar radicalmente nos dias em que priva com os filhos. Não existe a Mãe dos filhos para o substituir em nenhuma tarefa, pelo que as suas prioridades devem estar focalizadas para o maior bem que possui - as suas crianças.
Não obstante esta Verdade, este tipo de Pais entrega a maior parte dessas horas aos Avós e às baby siters para não ter que alterar a sua forma egoísta de estar na vida.
Normalmente, os jantares com os amigos têm prioridade, os jogos de futebol também, as reuniões de trabalho idem e por aí fora, numa lógica totalmente inconsciente onde a importância da criança não tem o papel central que deveria ter.
No segundo grupo, estão aqueles Pais que dedicam tempo e atenção ao acompanhamento dos filhos, mas que o fazem, na maioria das vezes, de forma errada. Infelizmente, não basta dedicar tempo e acompanhar – é necessário saber como o fazer.
O Pai que investe tempo a ensinar um filho e lhe dedica a frase “caramba, nunca fazes isto direito” sempre que assiste a um erro, poderá estar a fazer ainda pior do que o Pai tipificado no primeiro grupo – é que por vezes mais vale um filho não ensinado e preparado (porque pode sempre ter uma grande capacidade de auto-didatismo e elevados graus de confiança adquiridos por outro meio), do que um filho com traumas e sequelas impeditivas, fruto da linguagem negativa dos Pais (não é assim tão raro vermos crianças e adolescentes assumirem para si próprios que nunca fazem nada direito ou que não vão conseguir superar os desafios com os quais se irão deparar).
Muitos Pais cedem à tentação de "fazer pelos filhos", substituindo-os nas mais diversas tarefas, impedindo-os assim de aprender errando mas, ao mesmo tempo, praticando e aperfeiçoando o resultado.
Os Pais devem orientar os filhos, deixando a experiência prática para eles. E essa experiência trará resultados por diversas fases: desde o resultado insuficiente até ao resultado satisfatório. Nesse entretanto, é necessário acompanhar a criança com diálogos positivos, tais como "está cada vez melhor", em vez de "estás sempre a fazer mal" ou "ainda não chega para ser bom".
Pode residir aqui a diferença entre uma criança construindo confiança e auto-estima e uma outra incapaz de o fazer e, portanto, insegura dos resultados que um dia pode produzir.
No terceiro grupo estão aqueles Pais que perceberam que dedicar tempo e atenção ao acompanhamento dos filhos tem como objectivos dar conhecimento e contribuir para o desenvolvimento, bem como cimentar atitudes e posturas perante situações.
Neste caso, é essencial saber trabalhar o conhecimento, a auto-estima e o grau de auto-confiança da criança ou adolescente, porque estas serão as suas ferramentas base para conquistar e vingar no futuro.
Enquanto que transmitir conhecimento a um filho pressupõe a partilha de um conjunto de informações executada de forma metódica, elevar a auto-estima e cimentar a confiança obriga a dar espaço à experiência individual. E esse espaço deve ser complementado com diálogos positivos, de encorajamento e satisfação.
Integrar um filho em algumas decisões pode também ser relevante para o adquirir de confiança. Perguntar "estou a pensar fazer isto de determinada maneira, o que achas?" pode produzir efeitos muito positivos a médio prazo, mesmo que o Pai tenha de guiar uma resposta não satisfatória do filho ao que pretendia fazer, corrigindo-a para "e se fizessemos antes assim?".
São as pequenas diferenças (de atitude, de linguagem e de margem) no acompanhamento e educação de uma criança que normalmente produzem resultados acima da média.
Pensemos um pouco em tudo isto e sejamos Verdadeiros Pais.
sábado, outubro 02, 2004
(Dissertação) Sucesso de uma Licenciatura
Os três pontos que posso considerar como vitais para o sucesso de uma licenciatura são a importância do professor para o aluno, a importância do esforço do aluno no atingir desse mesmo sucesso e a importância da licenciatura para uma pessoa.
Triângulo do Sucesso
Como se pode traduzir então o Sucesso de uma Licenciatura? Vamos abordar a questão pelas partes identificadas e no final chegaremos a uma conclusão.
O professor tem um papel central no nosso sucesso?
Estou certo que entre as pessoas que leêm este texto, encontramos alunos que se puderam classificar de bons, médios, fracos ou maus.
Pessoalmente, não acredito num mundo de carácter exclusivamente económico, onde as palavras de ordem são "procurar a rentabilidade máxima", porque ele implica de forma automática, a exclusão dos mais fracos e a dificuldade de inserção dos menos bons.
É aceitável, e até desejável, que no final de uma linha de produção se separe o produto defeituoso do que está em perfeitas condições de comercialização, mas neste caso, estamos a falar de produtos, não de pessoas e, como produtos que são, não têm forma de se auto-melhorar, ao contrário das pessoas, que podem sempre aprender, evoluir e melhorar.
Acredito numa política de carácter social, que misture os bons com os médios e com os fracos, porque estes dois últimos podem sempre melhorar e, para melhorar, necessitam por vezes de orientação, de ajuda e de apoio.
No entanto, não pactuo com a preguiça - é para mim condição vital que os bons, os médios e os mais fracos tenham em comum o esforço e a dedicação.
Então, coloca-se a questão: "Como melhorar o aluno médio e o aluno fraco?"
A resposta é "através do empenho do professor".
O professor tem uma missão extremamente complexa que não deve ser reduzida muitas vezes ao tradicional "ensinar para os bons". Todo o professor tem como missão "ensinar para todos, fazendo crescer os médios e recuperando os fracos".
E como é possível recuperar os fracos?
- Dando confiança e motivação
- Ensinando a usar método
- Obtendo o máximo de esforço
Eu era um aluno mediano quando cheguei à Universidade e acabei o curso considerado como um dos melhores. Inteligência? Tenho alguma, mas conheci lá pessoas verdadeiramente inteligentes. No entanto, para além das boas notas em todas as cadeiras do curso, eu tinha sempre as melhores notas nos trabalhos práticos porque o meu esforço era dez vezes superior ao deles.
Tive lá professores que me deram muita confiança e obtiveram de mim o máximo esforço.
Sei que isto é possível porque aconteceu comigo, mudando para sempre a minha vida e, nos anos seguintes a ter terminado o curso, mudei a vida de vários explicandos usando a mesma técnica.
Porque é tão importante o esforço no sucesso de uma licenciatura?
Porque nos dá agilidade de pensamento, porque nos dá um método, resistência e confiança.
Há pessoas que nascem talhadas para certos desportos - têm um jeito natural e uma compleição física própria - mas não raras vezes, o melhor é aquele que mais tempo dedica ao treino. O esforço faz a diferença.
a) Agilidade de pensamento e resistência
- Os músculos ficam ágeis e resistentes quando estimulados periodicamente por exercícios - o cérebro também.
b) Método
- Quando por vezes se executa determinada tarefa com carácter esporádico, nem sempre o caminho usado é o melhor; frequentemente leva mais tempo.
- Mas quando é executada frequentemente, temos tendência para nos interrogarmos sobre qual a forma mais eficaz de a realizar. E isso leva-nos a ter método, a procurá-lo.
c) Confiança
- A confiança é consequência da agilidade mental que se começa a obter e do método que nos permite realizar tarefas com êxito e de uma forma mais rápida.
Esforço não significa necessariamente dedicação total com prejuízo de outras actividades, mas sim um investimento periódico e regular na construção de algo.
Quem investe uma hora por dia a pintar as paredes da sua casa, provavelmente em duas semanas tem o trabalho pronto. Por outro lado, quem espera pela altura de ter dois dias inteiros livres para a pintar, provavelmente ainda não iniciou o trabalho quando o primeiro já o terminou.
Quem investe uma hora por dia a aprender algo, no final de um ano realizou mais de 45 dias de oito horas a trabalhar; no final de quatro anos, realizou 182 dias de trabalho ao que corresponde 2/3 de um ano profissional.
Podemos então assumir que quem investe um pouco todos os dias a mais do que os outros, vai obter uma grande diferença em termos de conhecimento no final de um ano.
O que nos dá então uma licenciatura?
- Mais método
- Mais capacidade de esforço
- Mais resistência
- Mais agilidade mental
- Mais confiança
- Bases para aquilo que vamos fazer durante a nossa vida
- Alarga horizontes ao abrir várias portas ao nosso conhecimento
No mercado actual das tecnologias de informação, a evolução das ferramentas é tão rápida que ainda hoje duvido que uma licenciatura nos dê mais do que as bases.
Por isso, alguns nomes sonantes do nosso mercado empresarial, defendem que os cursos deveriam ter uma duração de apenas três anos (por se encontrarem por vezes tão desfasados nas ferramentas usadas), para que o ciclo de apredizagem no mercado de trabalho se iniciasse mais cedo.
Mas este é um exemplo de uma política puramente económica.
O tempo de crescimento e aprendizagem numa Universidade, se bem que mais lento, é essêncial para criar uma base sólida de confiança e de resistência, sem sujeitar o indivíduo às pressões exteriores.
Por alguma razão a sociedade ocidental proibiu o trabalho infantil (tudo tem de ter o seu espaço para atingir a maturidade).
Não se iludam: cá fora praticamente não existe política social, mas quase sempre económica.
Quando a sociedade perceber que pode recuperar grande parte dos indivíduos, então começará a seleccionar as pessoas apenas pelas suas características pessoais, muitas vezes em detrimento das competências profissionais.
Aos 25 ou 27 anos, um profissional mediano pode vir a tornar-se num excelente profissional (conheço muitos casos), mas raramente uma pessoa arrogante, mesquinha e egoísta se recupera.
São os valores sociais que têm raízes bem mais fortes do que as aptidões profissionais.
Então, já sabemos o que é e do que depende o sucesso de qualquer licenciatura.
E por último, como conclusão:
O que é então o sucesso no mercado profissional?
Profissionalmente, a nossa vida pode ser comparada a uma longa maratona:
- Os atletas devem ter um tempo de preparação, a que correspondem os nossos anos de estudo (e vejam a importância que a preparação tem);
- Depois correm a maratona, e isto corresponde ao conjunto de anos que iremos passar a trabalhar;
- E por fim, cortam a meta e descansam, e isto deve corresponder à nossa reforma.
Digam-me: Se numa prova de 45 Kms, um atleta começa desde logo a sprintar e aos 2 Kms tiver já uma grande vantagem sobre os outros, devemos considerar que ele é bom e que provavelmente irá ganhar?
Será que ele vai aguentar a prova toda? Provavelmente não, talvez seja apenas um inconsciente.
Quero com isto dizer que ninguém tem sucesso aos 30 ou 40 anos; o sucesso da nossa vida profissional vai ser quantificado apenas quando a corrida terminar, ou seja, na reforma de um profissional.
Até lá, ainda podemos chegar em primeiro.
sexta-feira, setembro 24, 2004
(Dissertação) Bases da Relação Feliz
Acredito que a camada base no caminho para ser feliz, assenta na construção de uma sólida vida a dois. E talvez seja necessária muita clarividência para encontrar a fórmula para lá chegar.
Palavras como "amizade", "cumplicidade", "honestidade" e "amor", podem parecer fáceis de decifrar, perceber e, como tal, de colocar em prática, mas, infelizmente, não é tão simples como à primeira vista parece.
A Amizade pressupõe termos a capacidade de estar lá pelo outro, independentemente dos atrasos que isso nos possa trazer, ou até de outro tipo de perdas associadas. Pressupõe que somos capazes de dar o melhor de nós, não por nós ou para nós, mas por uma outra pessoa. Ser amigo, na maior parte dos casos, é perder para dar e ganhar por perder.
A Cumplicidade só existe para quem sente que um ser completo faz parte de dois seres juntos. Ser cúmplice é saber que os compartimentos dos nossos sentimentos, pensamentos e vivências quotidianas não são estanques ou fechados ao exterior - são antes depósitos num compartimento bem maior - aquele que serve uma vida plena a dois.
É necessário saber partilhar tudo - sensações, alegrias, medos, frustrações, sonhos, expectativas, desilusões, experiências, pensamentos, amarguras e tristezas.
E partilhá-los não é o mesmo que contá-los - é necessário saber falar e ouvir - e ouvir, não o que por vezes se quer, mas sim o que o outro sente e pensa.
É necessário ser humilde, muito humilde, para que haja capacidade de aceitar o que os outros pensam, porque, por vezes, pensam de forma diferente da nossa, ou sentem as coisas, provavelmente da forma que também as sentimos, mas que não queremos ouvir ou admitir.
É necessário perceber que uma visão diferente não é um ataque, mas apenas uma outra forma de olhar a mesma coisa. E, quem sabe, muitas vezes a verdade não se encontra precisamente no meio de duas opiniões?
Por fim, é também necessário perceber que as opiniões do nosso companheiro podem também conter sensações, medos, frustrações, desilusões e tristezas e que elas serão a base da sua opinião.
Ser cúmplice não tem como finalidade obter aprovações, mas sim manter proximidades e gerar consensos, ganhar confianças e fortalecer alianças.
A Honestidade pressupõe em primeiro lugar termos a capacidade de sermos verdadeiros connosco próprios e, para isso, é necessário que exista em nós a coragem e a clarividência suficientes para que não nos deixemos enganar a nós mesmos.
Depois, o acto de ser honesto com o nosso parceiro já entra no ponto da Cumplicidade, onde a capacidade de partilhar e de ser humilde é decisiva.
Amar, acaba por não ser mais do que, para além de gostar de outro de forma intensa e única (o que pressupõe viver para a felicidade de terceiros), ser também capaz de se ser amigo, honesto e cúmplice.
Viver para alguém e por alguém, quando esse alguém vive para nós e por nós, é a minha definição de amor. Não, não gera dependências, gera antes sintonias, sinergias, alegria, verdade e uma base enorme para se construir uma verdadeira Família.
Gera um lar seguro para os filhos, transmite a paz que eles necessitam para crescerem confiantes e dá-lhes o maior exemplo do que pode ser a vida com amor.
Estou convencido que uma casa assim vale mais do que mil palavras investidas na educação dos filhos.
Hoje, sei que muitas das pessoas que casam não têm ideia das bases que devem construir. E isso explica (e para mim é a maior causa), o insucesso de muitos casamentos, desde os que se mantêm pelos filhos, os que se mantêm por acomodação e os que em definitivo acabam.
Chamo à ausência das características que enumerei e descrevi de Egoísmo Adulto.
O Egoísta Adulto quer que o outro o faça feliz. E essa expectativa, podendo ter vários motivos, pode ser resumida num único e perfeitamente válido para a maior parte dos casos: porque acha que merece.
Mas o Amor, o verdadeiro Amor, assenta numa vontade completamente diferente e oposta: a de querer fazer outra pessoa feliz e ser feliz por isso mesmo. E quando o amor é verdadeiro existe reciprocidade nas vontades e resultado idêntico na satisfação final.
Falei da Amizade, da Cumplicidade, da Honestidade e do Amor, mas não falei ainda de algo comum a todos eles em termos de necessidade: o Tempo.
Para construir uma relação sólida com amizade, cumplicidade, verdade e amor é necessário tempo, tempo precioso e fundamental.
O quotidiano hoje em dia não é fácil para a maior parte dos casais: o trabalho exige tempo, a casa exige tempo, os filhos exigem tempo, a família exige tempo, os amigos exigem tempo e até nós mesmos exigimos tempo... e o tempo é apenas uma unidade estática, que não se desdobra, não se alarga, não se multiplica, a não ser com o passar para a próxima unidade estática: o próximo dia.
Conheço pessoas que distribuem bem o tempo pelo trabalho, casa, filhos, família e amigos... mas não estarão a estragar o que têm de mais precioso e de mais importante, ou seja, a sua própria relação? É que a nossa relação é a base do resto e sem uma relação forte, corremos o risco de que esse resto se desintegre, como acontece na sequência de um divórcio.
Que sentido faz um bom emprego, uma boa casa, uns lindos filhos, pais e irmãos satisfeitos e amigos para toda a vida, quando a nossa própria vida, aquela que é feita a dois, não existe ou pior ainda, está irremediavelmente morta?
Há quem diga que o que temos de mais importante são os filhos e eu estou de acordo, convicto (porque também o sinto) de que é verdade.
Mas porque são o que de mais importante temos, há quem não os largue, ou seja, quem não abdique de estar com eles todo o tempo que pode.
E aqui reside um importante problema que tento explicar com um exemplo:
Se eu tiver uma flôr rara da qual gosto muito, não posso ficar sempre ao seu lado porque senão ela acabará por morrer sem água. Assim, e de uma forma simples, terei de me ausentar para seu bem, sempre que lhe vou buscar alimento.
E se ela fôr muito importante para mim, provavelmente não quererei depender da companhia das águas para lhe garantir alimento e, então, talvez desvie um pequeno curso de rio para ser auto suficiente.
E se ela fôr única e vital para mim, então investirei muito tempo na construção de um canal sólido entre o rio e o local onde ela está... e assim por diante. E em todo o tempo que vou gastar, não estarei com ela, mas estou a garantir-lhe longevidade de forma segura.
Todas as crianças necessitam de atenção, de carinho, de alimento, de roupa e de educação. Mas necessitam de tudo isso dentro de um ambiente rico em amor, estável e bem alicerçado. É nesse ambiente que crescem, se desenvolvem, aprendem e tiram lições para a vida. Os Pais são o maior exemplo para os filhos, por toda a vida.
Então, e para bem deles, é necessário mesmo antes de estar com eles, de lhes criar o ambiente ideal onde irão passar mais de um quarto da sua vida. E isso custa Tempo.
E isto leva-nos a tudo o que já escrevi sobre a relação a dois. Antes de tudo o resto, ela é a base da vida adulta.
Claro que nenhuma criança morre se não tiver o ambiente ideal - qualquer adulto vive sem um bom emprego, sem uma casa própria, sem amor, sem família ou sem amigos...
Mas dói, não dói? E somos adultos.

